20 março, 2015

Cartas...



Não sei o que me falta ainda dizer-te,
ou se aquilo que digo, o digo vezes que cheguem.
Estes últimos anos tem sido tudo à míngua.
As palavras, as idas à horta, para colher a alface fresquinha,
as risadas à mesa, as sobremesas da mãe, os abraços...
Ai os abraços!...(e eu que estou tão longe...)
Faltas-me. Faltas-me sempre.
Uns dias mais que outros.
Hoje o sangue gritava mais alto e o peito apertava,
por não te ter, ali ao virar da esquina.
Estava frio, mais que ontem. Estes dias são sempre mais frios.
Voltei a apanhar-me a rezar ao Tempo. Não a Deus, mas ao Tempo.
Não ao tempo, que faz, mas ao Tempo que tenho.
É a ele que elevo as minhas preces. Peço mais tempo, para mais palavras,
mais idas à horta, mais risadas à mesa, mais sobremesas da mãe, mais abraços...
ainda que tudo à mingua... (e eu que estou tão longe...)

Aprendi contigo, que nós não passamos pelos dias,
são os dias que passam por nós. Que o dia deve passar inteiro,
e nós devemos permanecer de pé. É isso que realmente conta,
estar ainda de pé, depois do dia passar. Agarrar-se ao que seja, mas ficar firme, direito!
“Enquanto eu for vivo, não cais”, dizias (e sei que ainda dizes).

Hoje agarrei-me à nossa última memória juntos,
quando num gesto apressado me estendeste a mão, mais uma vez,
e a apertaste com força.
Enquanto te escrevo, ainda sinto a tua mão na minha,
a tentar desfazer esta maldita distância.
Agora que o dia já passou, quero que saibas, Pai, que passou por nós de mãos dadas...


Sónia M






12 comentários:

  1. Fizeste um Hino!
    - E, Ele, será sempre cantado!

    BEIJO.

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  2. Um lindo texto. O meu também me falta, e tenho tantas saudades.
    Um abraço e bom Domingo

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  3. um poema sinfónico - muito belo.

    beijo

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  4. uma bonita homenagem.
    deixo o meu abraço.
    um beijo
    :)

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  5. Intenso, preciso e com a delicadeza que caracteriza, tudo o que escreves!
    Lindo, doce Sônia!

    Uma ótima semaninha pra ti!

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  6. Belíssima carta ao teu pai! E tão grande essa saudade das idas à horta,
    das sobremesas da mãe, das risadas, dos abraços.
    "A saudade é uma estrada longa", como diz a canção,
    e o tempo da distância parece sempre longo demais.
    Continuas "em forma", Sónia!
    xx

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  7. Cartas, quem as não tem! E quando são de pessoas muito amadas, fazem-nos rolar pelo rosto uma lágrima de alegria! Tudo de bom para a família! O MEU ABRAÇO.

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  8. Não há morte nem princípio

    tudo se move

    Bj

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  9. Olá, Sónia.
    Este poema é um grito.
    Apetece-me gritar, gritar ao Tempo, gritar a Deus. Gritar.
    "Faltas-me sempre." - e tanto!
    Tanto que a saudade nos mata, e o tempo se encolhe e ela não.
    bj amg

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