Mostrar mensagens com a etiqueta No fundo da gaveta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta No fundo da gaveta. Mostrar todas as mensagens

04 maio, 2014

Este é o meu chão. (Excerto)




A escada de madeira, apesar de lhe ser entregue a mais leve e a mais pequena, tinha o peso da dor de mil inocências perdidas.Carregava-a, tentando equilibrá-la até chegar à próxima oliveira, num chão que se agarrava às botas de borracha. Fazendo com que o próximo passo, fosse ainda mais penoso que o anterior. Cada passo dado somava peso, que o seu corpo pequeno e franzino, suportava apenas através do pensamento - Eu consigo!
Era como se a terra a quisesse tragar de vez e assim a libertar daquele martírio. Ainda assim, insistia em permanecer à superfície. 

- Este é o meu chão e a escada a minha cruz. Talvez todos sejamos um Cristo, a carregar misérias às costas, não pecados, e, em algum lugar do caminho, alguém nos espere para nos crucificar, como castigo, por sermos pobres.
-Mãe, tenho frio, já não sinto as mãos.
-Aguenta só mais um pouco. Estamos quase na hora de almoço, depois já te podes aquecer ao lume.

Demorou tempo até perceber, que confessar o frio, que tinha, lhe gelava todo o peito. Antes que chegasse a tão desejada hora de almoço, por várias vezes, pode ver a ponta do mar imenso que segurava nos olhos. Olhava-a, sempre que podia, e, nos olhos, carregava a dor de todas as mães, que não conseguem levar os filhos a pisar outro chão, a não ser o que elas próprias pisam.(...)

Sónia M

Pintura, Amanda Greavette

Deixo um beijo a todas as mães que por aqui passarem. Feliz dia!




12 junho, 2013

As cartas que nunca te entreguei II


(excerto)


Batias insistentemente a uma porta que eu nunca abria.
Chegavas sempre nos dias mais quentes, como um pássaro,
deixando na entrada as flores, que colhias nos campos por onde passavas.
Nunca te senti longe, nem perto, fora, ou dentro. Apenas sentia que estavas.
Pertencias ao que comigo nascera, como uma mão, um olho, um braço, ou um dedo, 
talvez metade de tudo o que o peito alberga. Eras assim uma parte minha, 
que encontrei num daqueles acasos em que eu nem acredito.
Foi no dia em que te esperei, com a porta aberta, que não chegaste.
Decifrei assim o meu primeiro enigma. O mistério do tempo das coisas. 
Porque mesmo o que é nosso, deve ser agarrado no tempo certo em que se percebe, 
se descobre, que sempre o foi.
(...)

Sónia M.



14 fevereiro, 2013

As cartas que nunca te entreguei... (excerto)


Parece que foi há tanto tempo, que fugíamos na noite,
sobre a proteção de uma lua risonha...

Acabávamos por dormir ao relento a contemplar um céu de estrelas fugazes.
Era a efemeridade do momento que o fazia eterno e, assim,
criámos um mundo livre do peso da vida, onde o Amor incendiava
o chão que nos fugia. 

Voltávamos a casa abraçados pelos primeiros raios de sol, 
olhando todo o Universo através dos olhos um do outro. 
E o mundo era imenso e nós maiores que o mundo!...

Sónia M

(Nem tudo o que se encontra no fundo da gaveta é mau, às vezes é nada mais que o Presente...)