27 junho, 2020

O GESTO





Fazer o gesto é muito mais que fazer um gesto.
É a solidão da mão; um breve aceno em ar vazio;
o desenho transparente  do adeus, ao que nunca esteve.
Porque uma alma inquieta nunca está.  Por isso parte.
Uma e outra vez,  parte 
                              e parte e parte!
Tem toda uma vida para partir. Uma única vida. E parte.

Pudesse a mão ser um dia carícia; um sol antigo na pele.
Pele na pele a tremer no peito e um fio de loucura 
a abraçar o corpo rendido. 
A mão...a mão guarda o cosmos.
A mão! O principio ou o fim do sonho...

Fazer o gesto, 
a mão,
um breve aceno...
Como se entre o estar e o partir, 
amar fosse a única demência 

da qual foges...



© Sónia Micaelo




26 junho, 2020

AUSÊNCIAS - poema de Sónia Micaelo





Uma nova experiência em tempos de pandemia. 
Um canal dedicado à POESIA, " NO ÍNTIMO DA VOZ".
Subscreva quem gostar. 


22 junho, 2020

O AR ENTRE AS COISAS



Nunca tive grandes ambições. 
Nunca procurei um corpo, pele, casa, carro, coração ou amores. 
 Amaram-me sempre mais, do que aquilo que eu podia amar. A doação, que se finge incondicional entre duas pessoas, é como um eco que se espalha nas veias, uma mortalha à própria natureza. 
 E eu não podia, 
             não queria, 
                     não quero,  
                        não posso, perder nada de mim! Não por achar ser valioso, mas sim por saber que é quase nada... Não se consegue entregar parte de coisa nenhuma. 

Cedo descobri  que o ar que existe entre as coisas, é o que realmente me fascina. 
Passo na rua sem ver a rua, sei que caminho na rua, porque o ar, que existe entre a calçada e os meus sapatos, é frio, vazio... 

Eu respiro-o ...e sei que vou na rua.

Passo no jardim sem ver as flores. 
Mas sei que caminho no jardim, porque o ar, que vai da flor à borboleta, é leve e morno, uma gentileza à sua breve vida. 

E eu respiro-o e sei que caminho no jardim. 

A multidão é o que mais assusta. 
Passo sem ver as pessoas, e evito tanto olhar para elas, que nunca chego a conhecê-las. Nunca sei se o nariz é grande, o cabelo é curto, ou se têm pés pequenos. Mas sei do ar que as toca sem que elas saibam. 

Respiro-o e quase sufoco...quase grito, quase lume, quase dor, quase raiva!... 

Não vejo a multidão, mas sei que caminho entre ela e afasto-me. 

 Amo a solidão. A solidão do ar que existe entre as coisas, uma espécie de poema, que depois que se respira, já não te larga. 
Não importa por onde passe, vou sempre só.

A verdade ...é que sempre me bastou o deslumbre do ar do caminho, sem pensar, ou sem saber, que um dia, isso me levaria a chegar a alguma parte. 

Passo por ti sem te ver - direi um dia - mas sei que por ti passo, porque me detenho. 
O ar que vai da minha boca à tua, tem a demência do beijo. 

E eu respiro-o. Uma loucura qualquer que se abraça e me pede para abrir os olhos. 
Passo por ti, vejo o ar que vai dos meus olhos aos teus. 

E eu respiro-o 
e sei
e vejo 
que finalmente cheguei...

Saberás tu?


   © Sónia Micaelo

02 junho, 2020

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arde-me nas mãos 
o único que escrevi à rebeldia do medo 

entre o quase tudo 
o nada 
entre o que falta e o que sobra 
tu o corpo e a coragem 

olhaste nos olhos da manhã sem lhe veres a ternura 
{ já ninguém vê para além da cor dos olhos } 

não há verdade ou mentira 
apenas incógnita 
a calcar algo que possa haver de profundo 

e eu repeti o que agora arde ...e arde.. 
no âmago da entrega 
"o que for...que seja ...que seja o que for" 

e foi ... 
tudo o que quiseste meu bem 

uma folha mais
às costas de um verso seco...   

*

Sónia Micaelo   

(Imagem no Pinterest)

30 maio, 2020

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resta sempre o vácuo 
onde a descrença germina

e a dor...

finges atravessar incólume 
as margens ausentes
a noite e a rotina

no degredo dos dias
nem percebes
que a alma suspira em 
leito estéril 

enquanto que a vida
que se não vive

sobra...

*

Sónia Micaelo

*

(Imagem no Pinterest )

11 maio, 2020

 



Procuro nos teus olhos 
a fibra do verbo 

algo que diga amar 
frente ao abismo de um verso desfeito 

entro inteira na imagem onírica 
 que o espelho devolve 

uma superfície de brumas teima 
 em estender-se pelo corpo 
mas todo o meu sangue se acende 
no grito da ave faminta 
que por ti chama. 

As tuas mãos, meu bem, as tuas mãos... 

o desígnio, a flor do instante 
onde um deus insano 
tece um poema tardio 
e vem beijar o meu peito em ruínas .

*

Sónia Micaelo, 
in "SER MULHER III" 
Vários Autores | Edt. Mosaico de Palavras ( a editar, Outubro 2020)

*

Fotografia de Laura Makabresku

04 maio, 2020

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sabes, meu bem
o coração não obedece 
 às marés 

nem à idade da rosa 
que desflora sobre a mesa

às vezes em sonho chegas 
recolhes o choro dos pássaros 
e demoras 

ocultas-te entre a madrugada
para não deixar passar o vento

Inconformado deixas um grito
aos pés da terra e partes

partes sempre com as  mãos cheias
de maresia inacabada...

*
Sónia Micaelo
 (todos os direitos reservados)

(Imagem sem autor mencionado)

05 abril, 2020



Podia agora perder-me neste sorriso. 
Não fosse o nosso destino
uma dor de lonjuras. 
E as mãos 
este lugar frio com ruas vazias. 
Não fosse adiada a Primavera, 
com que sempre me recebes ,
nesses teus olhos lavados de ternura 
à espera de um novo abraço. 



"Era Abril...mas podia ser Agosto." 
Notas do meu diário 

Sónia Micaelo 
05/04/2020 

 Imagem, eu e o meu pai.

18 janeiro, 2020

A saudade é um lugar de solidão.
Um lugar sem fim, de onde parto e regresso. 
Um lugar que muda, sem que nada mude, 
ou tudo se transforme. 
Um lugar de portas fechadas, paredes frias. 
Um banco gelado, num jardim que desconheço, onde me sento e sorrio 
a todos quanto passam... 

Sónia M

26 outubro, 2018




Já não sei regressar.
A mão que ampara, também  puxa e prende, 
escondendo a poesia aos pássaros. 
Nos dias que ensaio o voo, preparo o cenário. 
Um céu azul, desbotado, pende de uma gaiola dourada. 
Cinco ou seis gatos pardos, sentados em poltronas gigantes,
 fingem que aplaudem. Aguardam. 
Eu abro os braços e todo o meu corpo é uma cruz. 
Quanta beleza transpira em cima do palco onde me vês?
A dor é um poema, que se enrola à ferrugem das grades.
E eu já não sei regressar, meu bem. 
Asas batem e batem , cansadas, em frente a um chão de gatos...

Sónia M

Imagem, Noell Oszvald