19 setembro, 2020





assiste ao pôr do sol
{a todos que possas}
como um colecionador de ocasos

guarda-os todos 
no mais fundo dos olhos

começa amanhã

que ainda há tempo!

agarra o primeiro 

por entre o espanto das mãos
e diz-lhe o meu nome

fala-lhe de mim

como o pássaro azul
que guarda o mistério do sonho
até ao último raio de luz

 


© Sónia Micaelo 
 (texto e imagem
)

15 agosto, 2020

Algo haverá para despir a espera

  


algo haverá para despir a espera
como se despe uma mulher
deixando a roupa espalhada no quarto

e fixando os olhos na mais feia cicatriz da parede
pede ao pequeno insecto pousado no ombro
que mastigue as cordas invisíveis da noite 

algo haverá para despir a espera

e um dia alguém dirá que voltei a casa
sem borboletas no ventre
mas que cheguei ao centro da minha rua
com toda a terra fechada no punho

sei que algo haverá...
um dia...

talvez uma noite no centro da vida
ou a vida toda no centro da espera já nua
e da boca da ave do assombro
comer ainda os morangos maduros...


© Sónia Micaelo

(texto e imagem)

28 julho, 2020

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(Excerto)

Cheguei à janela da manhã e olhei para o chão sem espaço.
Um pássaro pousou-me nos dedos e quebrou-me o silêncio do corpo.
Quis sussurrar-me um segredo no peito, para que bem o ouvisse e partiu.
"Numa terra sem chão, voa!", disse. 
E eu...segui-o.

Sónia Micaelo
(Texto e imagem)


10 julho, 2020

Paradoxos







Em algum lugar, folhas caídas, tentam ainda trepar as árvores. 

Não sei se é a folha que procura a árvore, 
ou a árvore que procura ainda a folha... 
Há buscas que nunca encontram caminhos...
Caminhos que ninguém procura.  Sonhos que ninguém persegue...
Estações com comboios que vão e vêm de lugar nenhum. 
Partidas sem regresso e regressos a apeadeiros vazios. 
Braços que ninguém espera e abraços que ninguém esperava... 
Dias que não chegam e amores que nunca o serão.

Janelas voltam a fechar-se e abrem-se portas. 
Praças enchem-se de gente e mais gente.  Tanta gente, 
de novo tão invisível no outro. Da janela, todos os dias, 
avistava uma mulher, com um chapéu na cabeça de uma cor indecifrável. 
Reconhecia-lhe o andar cambaleante, de quem vai bêbada de saudade 
e amarguras.  Sem a janela...sem a janela já não a encontro!
Não sei se morreu ou voltou à transparência da rua. 

Mas nada disto importa!

Mais ao longe, o verde de uma oliveira 
resiste estoicamente à paisagem alaranjada. 
Mesmo que eu não queira, o sol já inundou os campos e as esplanadas, 
onde umas mãos te rodeiam agora o pescoço... 
e um homem de sorriso amarelo, tenta vender, por entre as mesas, 
a solidão da rosa em pranto, pela falta de raiz. 
A um canto da esplanada ali está ela!  Uma mesa vazia.
Que talvez, por distração ou respeito,  ninguém quis ocupar. 
Talvez me espere ... e ali te escreva mais um verso que ninguém lê. 

Mas eu sei, eu sei...que nada disto importa!

Muito ao longe, no firmamento, céu e mar fazem-se uno, 
sem deixar o mínimo rastro deste lugar, onde comungam o amor e o ódio; 
o céu e o inferno; a mulher do chapéu de cor indecifrável e um dia que não chega;
um comboio sem paragem e tu e eu.

Tudo isto sem rastro.
Tudo isto sem nós... 


©Sónia Micaelo 
(Texto e imagem)

No vídeo
com voz ⤵️


27 junho, 2020

O GESTO





Fazer o gesto é muito mais que fazer um gesto.
É a solidão da mão; um breve aceno em ar vazio;
o desenho transparente  do adeus, ao que nunca esteve.
Porque uma alma inquieta nunca está.  Por isso parte.
Uma e outra vez,  parte 
                              e parte e parte!
Tem toda uma vida para partir. Uma única vida. E parte.

Pudesse a mão ser um dia carícia; um sol antigo na pele.
Pele na pele a tremer no peito e um fio de loucura 
a abraçar o corpo rendido. 
A mão...a mão guarda o cosmos.
A mão! O principio ou o fim do sonho...

Fazer o gesto, 
a mão,
um breve aceno...
Como se entre o estar e o partir, 
amar fosse a única demência 

da qual foges...



© Sónia Micaelo




26 junho, 2020

AUSÊNCIAS - poema de Sónia Micaelo





Uma nova experiência em tempos de pandemia. 
Um canal dedicado à POESIA, " NO ÍNTIMO DA VOZ".
Subscreva quem gostar. 


22 junho, 2020

O AR ENTRE AS COISAS



Nunca tive grandes ambições. 
Nunca procurei um corpo, pele, casa, carro, coração ou amores. 
 Amaram-me sempre mais, do que aquilo que eu podia amar. A doação, que se finge incondicional entre duas pessoas, é como um eco que se espalha nas veias, uma mortalha à própria natureza. 
 E eu não podia, 
             não queria, 
                     não quero,  
                        não posso, perder nada de mim! Não por achar ser valioso, mas sim por saber que é quase nada... Não se consegue entregar parte de coisa nenhuma. 

Cedo descobri  que o ar que existe entre as coisas, é o que realmente me fascina. 
Passo na rua sem ver a rua, sei que caminho na rua, porque o ar, que existe entre a calçada e os meus sapatos, é frio, vazio... 

Eu respiro-o ...e sei que vou na rua.

Passo no jardim sem ver as flores. 
Mas sei que caminho no jardim, porque o ar, que vai da flor à borboleta, é leve e morno, uma gentileza à sua breve vida. 

E eu respiro-o e sei que caminho no jardim. 

A multidão é o que mais assusta. 
Passo sem ver as pessoas, e evito tanto olhar para elas, que nunca chego a conhecê-las. Nunca sei se o nariz é grande, o cabelo é curto, ou se têm pés pequenos. Mas sei do ar que as toca sem que elas saibam. 

Respiro-o e quase sufoco...quase grito, quase lume, quase dor, quase raiva!... 

Não vejo a multidão, mas sei que caminho entre ela e afasto-me. 

 Amo a solidão. A solidão do ar que existe entre as coisas, uma espécie de poema, que depois que se respira, já não te larga. 
Não importa por onde passe, vou sempre só.

A verdade ...é que sempre me bastou o deslumbre do ar do caminho, sem pensar, ou sem saber, que um dia, isso me levaria a chegar a alguma parte. 

Passo por ti sem te ver - direi um dia - mas sei que por ti passo, porque me detenho. 
O ar que vai da minha boca à tua, tem a demência do beijo. 

E eu respiro-o. Uma loucura qualquer que se abraça e me pede para abrir os olhos. 
Passo por ti, vejo o ar que vai dos meus olhos aos teus. 

E eu respiro-o 
e sei
e vejo 
que finalmente cheguei...

Saberás tu?


   © Sónia Micaelo

02 junho, 2020

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arde-me nas mãos 
o único que escrevi à rebeldia do medo 

entre o quase tudo 
o nada 
entre o que falta e o que sobra 
tu o corpo e a coragem 

olhaste nos olhos da manhã sem lhe veres a ternura 
{ já ninguém vê para além da cor dos olhos } 

não há verdade ou mentira 
apenas incógnita 
a calcar algo que possa haver de profundo 

e eu repeti o que agora arde ...e arde.. 
no âmago da entrega 
"o que for...que seja ...que seja o que for" 

e foi ... 
tudo o que quiseste meu bem 

uma folha mais
às costas de um verso seco...   

*

Sónia Micaelo   

(Imagem no Pinterest)

30 maio, 2020

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resta sempre o vácuo 
onde a descrença germina

e a dor...

finges atravessar incólume 
as margens ausentes
a noite e a rotina

no degredo dos dias
nem percebes
que a alma suspira em 
leito estéril 

enquanto que a vida
que se não vive

sobra...

*

Sónia Micaelo

*

(Imagem no Pinterest )

11 maio, 2020

 



Procuro nos teus olhos 
a fibra do verbo 

algo que diga amar 
frente ao abismo de um verso desfeito 

entro inteira na imagem onírica 
 que o espelho devolve 

uma superfície de brumas teima 
 em estender-se pelo corpo 
mas todo o meu sangue se acende 
no grito da ave faminta 
que por ti chama. 

As tuas mãos, meu bem, as tuas mãos... 

o desígnio, a flor do instante 
onde um deus insano 
tece um poema tardio 
e vem beijar o meu peito em ruínas .

*

Sónia Micaelo, 
in "SER MULHER III" 
Vários Autores | Edt. Mosaico de Palavras ( a editar, Outubro 2020)

*

Fotografia de Laura Makabresku