02 novembro, 2016

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De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.

O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.

Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.

Amarro o teu nome à palavra instante

antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome 
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.

O relógio marca a ilusão 
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo

até amanhã...

Sónia M


6 comentários:

  1. Belo poema escrito na fonte das águas de beber

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  2. Olá, Sónia
    Um belo poema de desamor que ainda assim espera um amanhã.
    Gostei muito da expressividade que tomou conta da dinâmica do poema. Ressaltam dele momentos de dolorosa emoção como "ali esgravato para que sangre sobre a folha duas ou três gotas de um verso só" ou "amarro o teu nome à palavra instante antes que durma ... - coisa nenhuma".
    Boa noite e faz-me o favor de ser feliz.

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  3. Sónia
    Levei o poema por empréstimo.
    obrigada!
    Saudações poéticas
    Bea

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  4. O amanhã é sempre uma incerteza.
    Belíssimo poema.
    Aproveito para desejar um Natal muito Feliz e um excelente Ano Novo.
    Beijinhos
    Maria

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