16 novembro, 2014

O Caderno


O céu desaba na rua indefesa. Chora o céu.
E em mim chove. A noite parece ser mais noite,
mais escura, quando chove. 
Na mão seguro um caderno de capa vermelho-sangue. 
E foi com o sangue de alguma veia que me rebentou 
nos dedos, que dei vida a todas as páginas. 

Sinto dizer que não deixarei muito,
a não ser este caderno: silêncios que me arderam
nos ossos, porque a vida queimava.
Onde as dores devoram o papel nicado e amarelecido,
mais que o tempo. O que deixo são uns quantos
momentos comovidos e alguma mágoa alvoraçada.
Um cálice cheio da melancolia que os meus olhos beberam.
Se o leres, promete que não sentirás pena.
É nas profundezas dos abismos que se equilibra a vida,
e a noite se abre.  Sei que é pouco. Muito pouco.
Julgamos sempre ser mais do que alguma vez fomos,
ou seremos.

Sónia M
(Notas de um diário, Abril 95)






14 comentários:

  1. "Julgamos sempre ser mais do que algumas vez fomos,
    ou seremos"
    Lindo, Sónia. Um beijinho carregado de saudades...

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  2. Tenho andado completamente desnorteada, prometo visitas mais assíduas. Saudades muitas muitas. E não publique isto porque a lágrima escorre escorre e ia borrar os comentários (ou publique se quiser, sei lá)

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    Respostas
    1. Maria, também eu tenho andado muito ausente...
      Visitas? Só quando apanho o tempo distraído e lhe roubo algum minuto. Olhe que o sacana não se distrai facilmente.

      Saudades muitas tantas tantas e tantas...
      Beijos e mais beijos.

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  3. Amei este texto, lindo e profundo em reflexões. Tenha uma feliz semana. Bjs

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  4. Tanta dor!! Há tanto tempo!!
    E lê-lo, é tão belo quanto doloroso!

    BEIJO.

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  5. Forte e intenso como já nos acostumaste! ...Mas sem dúvida que é por vezes
    "nas profundezas dos abismos que se equilibra a vida", e a dor tem de inevitavelmente
    que ser expressa numa folha de papel a gotas de sangue , ou simplesmente numa lágrima
    que não nos deixe sufocar na penumbra.
    Poderemos julgar ser mais do alguma vez fomos ou seremos, mas também somos
    tantas vezes muito mais do que julgamos. A questão da dimensão e do tal equilíbrio.
    É a dor que possibilita os mais grandiosos poemas.
    Parabéns, Sónia, é um gosto ler-te.
    xx

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  6. minha querida vindo de si tudo é lindo, até o que faz doer. Quantos cadernos escrevemos sem tinta mas que só nós sabemos ler. Mais uma perola para juntar no meu guarda joias.

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  7. Boa noite Sónia, que poema tão belo! Uma pérola como diz a Etelvina!
    Eu não sinto pena, mas sim uma enorme, enorme admiração!
    Beijinho carinhoso;.
    Ailime

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  8. somos aquém de nós...
    na profundeza dos abismos há sempre um húmus insuspeito de que a vida se alimenta

    beijo

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  9. sempre muito belo o que escreves, mas achei este muito mais sofrido.
    deixo um beijo terno
    :)

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  10. Belo, mesmo que doloroso, filtrou sensibilidade . bjs.

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