20 setembro, 2014

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O Pesadelo

Esta noite tive um pesadelo. Despertava e apenas ouvia silêncio.
Era muito mais que a ausência de sons. Era profundo, apertava 

cá dentro como um mau agoiro. Levantei-me lentamente e dirigi-me à janela.  
Lá fora as ruas estavam cheias de gente de braços abertos e mãos estendidas, 
a olhar o céu. Pareciam estátuas, ninguém se mexia nem falava. 
Os carros não circulavam, as fábricas não produziam, o mundo inteiro havia 
simplesmente parado e toda a humanidade estava na rua de braços abertos 
e mãos estendidas, a olhar o céu. Saí à rua descalça, o silêncio incomodava 
mais do que o frio, que fazia. Era difícil caminhar por entre aquele aglomerado 
de gente. Acabei por andar pouco mais de um metro e parei.
Confusa, tentei perguntar, à senhora ao meu lado, o que se passava, 
mas da minha boca não saía um único som! Por mais que abrisse e fechasse a boca, 
o único que cuspia era silêncio! Comecei a sentir os pés molhados. 
Rapidamente aquela água já me chegava aos tornozelos! 
Parecia um rio salgado, que nascia aos nossos pés. Foi então que reparei 
que todos choravam, silenciosamente, sem desviar o olhar do céu. 
Elevei o meu olhar e as lágrimas brotaram também dos meus olhos. 
O mundo havia mergulhado naquele silêncio triste, sem palavras, ninguém 
poderia voltar a falar da beleza das flores. O céu estava encoberto com uma nuvem 
gigante e dela caíam milhares de borboletas mortas. 
Abri os braços e estendi também as minhas mãos, que a pouco e pouco 
ficaram cheias de cadáveres coloridos... Quando acordei, tentei escrever o sonho 
imediatamente, para tentar não me esquecer dele.
Acordei incomodada! Fiquei em silêncio, a ouvir as buzinas dos carros lá fora 
e as sirenes da policia. Há tantos ruídos nesta cidade cinzenta. 
Crianças que choram, ao ouvir a morte que gargalha nas costas das mães, 
sem que elas saibam porque choram. Creio que apenas a inocência a ouve, 
a apoderar-se do tempo, que cada vez é menos. É quando acordo, 
que os sonhos bons me visitam. Tenho um, de há uns anos para cá, sempre o mesmo. 
Sonho em deixar de ouvir este silêncio, que ouço mais alto que todos os barulhos 
desta cidade, e que à noite me atormenta. Este silêncio que grita a dor da minha gente, 
que me chega de longe. Sonho que a terra reclama os filhos que partiram. 
E agora, enquanto sonho, com os olhos bem abertos, quase vejo o meu chão, 
que não é este, a alagar-se de lágrimas doces, de ternura e emoção, pela liberdade 
de nele poder ficar...com dignidade. No fundo, o meu sonho é um sonho simples. 
E a simplicidade é das coisas mais difíceis de alcançar.

Sónia Micaelo 
(Texto integrado na Antologia "Eu tenho um sonho..." Papel D' Arroz Ed.)