28 abril, 2014

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A primeira vez que morremos
morre também o para sempre
de cada morte.

Partimos para um lugar

onde as paredes são espelhos quebrados.
E por cada fresta de reflexo vazio
passam todas as dores.

Insinua-se a realidade nas pálpebras 

e no ventre. 

Como dói acordar do sono branco...


Quando se regressa

não somos menos 
mas mais um outro
cujas mãos cumprem o seu propósito
de rasgar  nuvens
alheias à luz que escondem.

Depois há a memória

que sempre resiste às pressas do tempo.
Porque sempre lembramos o dia
em que deixamos de falar
com os peixes
as pedras e os pássaros

e inventamos um deus que nos escute.


Sónia M


Imagem, © Lucas Simões




23 comentários:

  1. Esplêndido, Sónia!

    Há quem experimenta muitas mortes em vida.

    “Tão bom morrer de amor! – disse Quintana – E continuar vivendo...”

    Ótima semana para você!

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  2. A imagem não me assusta, porque prefiro viver morrendo de amor, como diz o 1º comentador!
    Cá vai o meu abraço

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  3. Oi Sónia,
    Lindos escritos que até me assustaram.
    Eu prefiro morrer naturalmente do que de saudades de um amor impossível.
    Beijos
    Lua Singular

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  4. Lindo! Lindo! Lindo! como tudo o que escreves, Sonia querida.

    Muitos beijos

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  5. Hola Sónia, buenas tardes,
    fantástico!
    hay muertes que dejan marcas,
    las propias y las primeras...
    lo bueno es que de éstas muertes nadie muere en realidad, "sólo nos hacemos mas fuertes".
    Hoy me dejé llevar =)

    Te deseo una gran semana
    un cálido abrazo

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  6. Morre-se todos os dias um bocadinho e só se renasce nas pequenas coisas, e nessa indelével marca da memória que persiste em nós. Por isso se a memória nos deixa de existir, só nos resta um corpo perdido no espaço e no tempo. À espera da última morte.
    Um poema lindíssimo, Sónia.
    xx

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  7. Boa tarde,
    Passar por espelho quebrado, acordar de um sono branco é deixar de ter paz, a morte calha a todos, que aconteça com amor.
    O que escreveu é criativo e lindo.
    Dia feliz
    ag

    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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  8. Olá Sónia, como é bela a tua poesia e como me faz pensar no quanto sofrem todos os que estão longe! Aqui apenas podemos escutar humildemente os seus cantos e agradecer pela coragem das "partidas" que doem!. Tenho esperança que a recompensa um dia chegará! Um beijinho Ailime

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  9. E é assim que crescemos e nos apercebemos...somente em criança vivemos plenamente o branco dos nossos sonos.

    Adorei.
    Beijo e uma boa semana, Sónia.

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  10. morre-se todos os dias e essa é a pior morte o morrer e estar vivo.
    a morte é certa, mas, eu confesso que não sei gerir essa situação.
    um beijo

    :)

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  11. Sonia,
    Ainda bem que temos um Deus que nos escute.
    Muito lindo o poema.
    Beijos

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  12. Bom dia querida Sonia... muitas mortes já tivemos e outras tantas tteremos ainda neste processo de busca espiritual.. a maorte assusta muitos, a mim não assusta mais pq sei dos mecanismos, pelo menos pude ouvir e gostei da abordagem..
    tem um programa que se chama
    programa vida inteligente- morte
    esta no youtube e tem duas partes falando dela..
    bjs e até sepre

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  13. nunca tinha pensado nisso - talvez, sim os deuses sirvam apenas para escutar-nos!...

    certo, certo é que caiu dentro o teu poema.
    como um murmúrio sereno.

    beijo

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  14. Até à penúltima vez, vamos renascendo a cada morte...
    José Cardoso Pires, que teve um AVC e quase morreu, escreveu o "De Profundis, Valsa Lenta". Não sei se tiveste alguma quase-morte que te levasse a fazer este poema, mas como disseste "Quando se regressa não somos menos mas mais um outro", lembrei-me do Cardoso Pires, pois foi exactamente isso que lhe aconteceu... nesse livro, ele narra todo o seu drama como se de outro se tratasse. O doente vagueava pelos corredores do hospital como quem procura a sua própria pessoa, perdida algures, vítima de um coágulo de sangue. Era a sua identidade que ele procurava; era o drama de se ter perdido a ele próprio. E da mesma forma brutal e silenciosa com que se perdera de si, o doente viria depois a reencontrar-se. Miraculosamente.
    Voltando ao teu poema (desculpa a deambulação...), achei-o magnífico e o final é de mestre. Excelente, minha querida amiga, estás em patamares só alcançáveis pelos bons poetas, que são muito poucos...
    Um beijo.

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  15. Entre a morte, a volta e os modos de permanecer.
    Abraço.

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  16. Senti-me inteira nesse poema e digo, como é doído acordar do sono branco...
    Mas a vida é assim - morrer todos os dias um tanto e logo a seguir ressurgir...
    Um enorme abraço e grata pela visita!
    Abraços

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  17. hilvanes de sentimientos
    que vienen a dar forma a un bello poema
    saludos

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  18. "Quando se regressa
    não somos menos
    mas mais um outro"

    Muito bem escrito. Corresponde à verdade. A imagem que a Sónia escolheu é muito inquietante, adequada sem duvida ao poema.

    Beijinho :)

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  19. Agradeço as visitas e comentários, apesar de se falar sobre morte, são eles que dão Vida a este espaço.
    Bom feriado!

    Deixo um abraço.

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  20. OI SONIA!
    ACHO QUE O MORRER DE TEUS LINDOS E INSTIGANTES VERSOS, É QUANDO PERDEMOS A SENSIBILIDADE DE NOS COMUNICARMOS COM O QUE NOS CERCA E QUE COMPÕEM ESTA MARAVILHOSA NATUREZA DA QUAL FAZEMOS PARTE, COMO TAMBÉM OS PEIXES, OS PÁSSAROS E AS PEDRAS...
    LINDO DEMAIS.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  21. Hay veces que los momentos mas duros nos hacen mas fuertes, saludos.

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  22. UN TEXTO DE NOSTÁLGICO EXISTENCIALISMO.
    UN ABRAZO

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  23. Bom dia,
    Agradeço a sua visita e comentário deixado nas minhas fotos.
    ag
    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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