26 outubro, 2018




Já não sei regressar.
A mão que ampara, também  puxa e prende, escondendo a poesia aos pássaros. 
Nos dias que ensaio o voo, preparo o cenário. Um céu azul, desbotado, pende de uma gaiola dourada. 
Cinco ou seis gatos pardos, sentados em poltronas gigantes, fingem que aplaudem. Aguardam. Eu abro os braços e todo o meu corpo é uma cruz. Quanta beleza transpira em cima do palco onde me vês?
A dor é um poema, que se enrola à ferrugem das grades.
E eu já não sei regressar, meu bem. 
Asas batem e batem , cansadas, em frente a um chão de gatos...

Sónia M

Imagem, Noell Oszvald

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