16 julho, 2022

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casa



dá-me a cor do vento

com paredes do sonho

e nas traseiras um jardim suspenso

com tulipas brancas a nascer

como quem cai do céu a sorrir


e um canteiro de estrelas

que suspire o dia inteiro

por um pouco mais de lua


deixa intocável 

o som das sombras que me circundam

e comigo se sentam 

a uma mesa feita de nós cegos 


pedes-me  uma única cor 

e cheiras sempre tanto a sol


e eu 

tremendo

por entre a penumbra 

tentando decifrar a cor do vento...


 ©Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)


10 julho, 2022

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Ao domingo a palavra sobra-me.

Ao domingo a palavra falta-me.

O domingo foi sempre um barco parado, 

sem rumo, bem no centro da minha existência. 

Um vazio que nasce quando o dia acorda mudo, 

sem que nada o preencha ou o afaste.


Ao domingo disfarço o silêncio 

com um sorriso oco - que todos devemos sorrir 

e ser felizes sempre; 

e bonitos; e sábios; e capazes! 

E todos são tudo isso e sempre mais. 

Agora eu? Eu não gosto do domingo. 

A não ser quando a voz da minha mãe 

galga a distância, que vai do agora 

à hora da missa, ralhando

que vou chegar atrasada. Ouço-a 

como se me gritasse de uma das margens.

E eu num barco parado 

bem no centro da minha existência.  


Não ouço os sinos, nem a reza, 

ou o amém, mas distingo o deslumbre 

daquela primeiríssima palavra que ouvi ao padre 

e corri ao dicionário para saber se existia, 

passando a usá-la até à exaustão - blasfémia!


A palavra sobra-me ao domingo.

O domingo é a blasfémia

 - não fosse a voz da minha mãe ... - ou 

eu sou a blasfémia do domingo. 


©Sónia Micaelo



03 julho, 2022

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por entre a busca e o desassombro 

um silêncio entregue às brumas do corpo 

e uma voz palpável na intimidade do vento

- como quem beija uma flor 

pétala a pétala - ocupa o vazio 

deploravelmente inteiro


©Sónia Micaelo

01 julho, 2022

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se. "





Assim é a chegada a um novo lugar. 

Um dia, deixei de - apenas - sentir 

o que não tenho, chorando ausências, 

e passei a ver beleza em toda a parte...


*


Zo is de aankomst op een nieuwe plaats. 

Op een dag, stopte ik gewoon met voelen 

wat ik niet heb - huilende afwezigheden - 

en begon overal schoonheid te zien...


Sónia Micaelo

Antuérpia,  29/06/2022

(Texto e imagem)

22 junho, 2022

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Despe a memória,  

lembra o som da chuva na janela do quarto.

O fado alegre no dia mais triste.

A carícia do beijo com sabor a sol.

Lembra como se olhasses um retrato,

que alguém tirou à janela de um sonho,

que não foste capaz de sonhar.


© Sónia Micaelo

(Texto e imagem)

18 junho, 2022

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soletra o meu nome devagar

olhos nos olhos - devagar


a forma como respiras 

talvez cure o mundo, ou a mim

- baixinho - até que o nome se acabe

e a tua voz se extinga


sou-te

na brevidade do nunca

no único que seja - o agora - na 

inocência da brisa do sempre 

que acaba por chegar às portas do peito 

e - antes mesmo de entrar - parte


amar-te 

foi quase sempre 

um breve calvário entre sílabas


©Sónia Micaelo 

14 junho, 2022

NIGHTFALL





Whispers of past storms

keep me awake at night

It swarms my cold body, it deforms

my right mind, making me fight,

or hide from the sounds

In the light, I am deaf, I drown

in my own lies

They devour me little by little

leaving a husk behind,

I want to forget.

My heart bleeds till the end of time

A red sea forms inside my walls,

How much I fear the nightfall.


©André MC 

(From my little - big - poet. My son.


Photography, ©Nuno Clavinas

09 junho, 2022

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não sou terra

nem sol

nem água 

nem lua

sou a semente do espanto

que aos pés do dia floresce

e à noite murmura 

- para sempre tua 


©Sónia Micaelo 


*


Fotografia, ©Nuno Clavinas