08 janeiro, 2022

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No virar da página a paisagem é a mesma:

 as casas do outro lado da rua, as árvores, as pedras da calçada, os candeeiros que acendem e apagam sempre à mesma hora. 

Tirando um ou outro detalhe -  como o das cortinas da minha vizinha -  só as nuvens mudam de sítio.

A minha vizinha da frente comprou umas cortinas novas, de um branco transparente e uns pequenos pássaros bordados, também a branco, na bainha.

 Quando a janela está aberta o vento puxa a cortina e, num quase bailado, elegante e feliz, ensina os pássaros a voar. Juro que sim.

Nesses dias abro também a minha janela e observo detalhadamente cada movimento .  Às vezes a vizinha vem, puxa a cortina e fecha a janela. Não sem antes me lançar um olhar de desprezo. E eu fico mais um pouco a sentir o vento e o absurdo desejo de ser cortina por um minuto.

E de minuto em minuto vamos gastando a página, os dias, as semanas, os meses, o ano. Querendo mudar a paisagem, alterar todo o cenário. Mudar muito mais que um sofá ou umas cortinas. Queremos abrir janelas em lugares sem luz, construir novos caminhos que nos permitam atravessar ou contornar obstáculos, passar por cima de tudo o que nos oprime. 

Tudo isto requer uma força e uma coragem que nem sempre sabemos ter.

E resistimos.  

Resistimos à maldade, à inveja, à tristeza, ao desespero,  à saudade; à falta que nos faz quem perdemos; ao medo de perder quem queremos; a uma pandemia que ninguém entende 

- Inconscientemente resistimos até ao amor -  resistimos e resistimos.

Mesmo quando as coisas más nos chegam aos pares - e elas sempre nos chegam aos pares! - resistimos.

Tantas são as batalhas que ganhamos… e perdemos. Em silêncio. Batalhas que travamos, sabendo que há guerras em que resistir é a única vitória.

Para esta primeira semana do ano, só uma palavra me ocorre:

 – RESISTIR.

Cheguei até a sussurrá-la enquanto bordava, com a mente, pássaros dançarinos, nas cortinas novas da vizinha.

 

Sónia Micaelo

(Texto e imagem)

 

04 dezembro, 2021

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Escrevo para reconhecer o caminho 
oculto na névoa, dar voz ao vasto 
silêncio estendido em cada verso.
Uma ave imóvel confronta a solidão 
frente ao infinito. Aguarda uma nesga 
de azul, ou a incontornável cor da esperança.


© Sónia Micaelo 
(Texto e imagem)


30 outubro, 2021

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volta a ser noite 

e a alma quase se afoga

no beijo 

na língua 

na curva do seio


opaca pele 

que uma boca devora

silene gemido

a rasgar silêncios de bruma


volta a ser noite 

e duas esmeraldas se fecham


que mãos?

que saliva 

incendeia o cansaço?


volta a ser noite

e eu tão inteira...


no disfarce vazio

quem tomba no leito?


©Sónia Micaelo 

29 setembro, 2021

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Tenho demasiadas solidões 

para contar. Não sou bela, nem musa,

nem verdade inscrita na pedra.

Invisível ao caminho, sou semente que espera,

por uma lágrima da ave noturna para quem  à noite costumo cantar.


Às vezes queria dizer mais, muito mais. 

Mas aprendi a amortalhar tudo. 

Calar, segurar, ou deixar a meio, aquilo que chamas de escrita enigmática.  


Dou por mim a perguntar, 

não sei bem a quem, 

"e se eu não disser 

e tu souberes o que eu não digo?" 


Não sou de longe nem de perto. 

Nem do antes, nem do agora.  

Não me reconheço na idade que tenho.

Desconheço a antiguidade das almas.

De tudo o que vejo, do nada que sei,

em tudo o que me aperta e calo, 

é aí que me procuro.


Em tudo onde me achei, nunca coube.

Onde se espera que caiba, vivo perdida.

Nunca sei se devo encolher ou aceitar que sobro.


Se eu cortar os dedos a esta voz, 

que teima em escrever, talvez pare de sangrar.

Esperar que tudo se baste, sem nunca ser o bastante. 

Sem me saber na existência, nem tu saberes como existo.


©Sónia Micaelo


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Fotografia, Adri Luna

19 setembro, 2021

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Sónia Micaelo, in ÁGUA SILÊNCIO SEDE- Antologia de 123 autores em homenagem poética a Maria Judite de Carvalho.

( Poética Edições, set. 2021)


“ O grande olhar vidrado 

   daquele olho de vidro

   de quadrante quadrado 

   de tempo dividido ;” 

                           

Tropeças num rosto;

charco de vida, encantada

arrastada pelo tempo

“Sem sonhos e sem nada".


Boca e palavra que aberta

às sombras desta hora

é voz que respira e grita

a ausência que ainda chora.


A solidão é de pedra,

pedra ao charco atirada,

onde de súbito me vejo

ave sombria

perdida

nos teus olhos pousada. 


*


Os versos entre aspas são da autoria de Maria Judite de Carvalho ( 1921- 1998)

28 agosto, 2021

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 Arrasta a casa por todas as ruas.

Por todas as cidades  

e países que atravesses.   


Que nenhum nome te arda. 


Sente os pés, 

passo a passo, 

o estômago, 

a cintura,

peso e pedras. 

O sinal de nascença, 

a respiração do pai nos caminhos 

sem eira. 

As largas mãos do destino,

o relógio de cuco do avô nas paredes da memória 

e o seu exército de criar ruínas. 


Mantém aberta a porta, longe do medo

e as paredes  caiadas de branco, 

sem  dobrar os joelhos.


Segura o beijo da mãe,

entre os dentes,

ao atravessar a ponte da ausência.


Que                              Que

nenhum                       nenhum

nome me arda.           nome me esqueça. 


Sente a tristeza 

e canta a alegria.

Longe do medo, bem longe do medo.

Sou eu a casa:

fachada de sonho e inocência

e esta é agora a minha morada.


- Voltar ao princípio em cada fronteira.


©Sónia Micaelo

(Texto e imagem)

25 agosto, 2021

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 líquida distância

a rasar a boca do verbo


metade gente,

metade quimera,

num corpo translúcido, desejo

metade obstáculo, uniforme 

e uma nesga de luz

a queimar os ombros

do que seria

se apagássemos todas as sombras



Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)

16 agosto, 2021

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procurei-te por toda a parte

céu noturno sem estrelas extintas


debruçada sobre a tua ausência 

fui quase sempre este denso vazio


uma folha arrancada em declínio 

peleja em vão o hiato

e esta inocência da busca

a pureza do primeiro veio

este tudo do nada


pequeno sopro de vento

que na voragem do real

roça a superfície 


e chora


©Sónia Micaelo


(Imagem no Pinterest)