22 junho, 2020

O AR ENTRE AS COISAS



Nunca tive grandes ambições. 
Nunca procurei um corpo, pele, casa, carro, coração ou amores. 
 Amaram-me sempre mais, do que aquilo que eu podia amar. A doação, que se finge incondicional entre duas pessoas, é como um eco que se espalha nas veias, uma mortalha à própria natureza. 
 E eu não podia, 
             não queria, 
                     não quero,  
                        não posso, perder nada de mim! Não por achar ser valioso, mas sim por saber que é quase nada... Não se consegue entregar parte de coisa nenhuma. 

Cedo descobri  que o ar que existe entre as coisas, é o que realmente me fascina. 
Passo na rua sem ver a rua, sei que caminho na rua, porque o ar, que existe entre a calçada e os meus sapatos, é frio, vazio... 

Eu respiro-o ...e sei que vou na rua.

Passo no jardim sem ver as flores. 
Mas sei que caminho no jardim, porque o ar, que vai da flor à borboleta, é leve e morno, uma gentileza à sua breve vida. 

E eu respiro-o e sei que caminho no jardim. 

A multidão é o que mais assusta. 
Passo sem ver as pessoas, e evito tanto olhar para elas, que nunca chego a conhecê-las. Nunca sei se o nariz é grande, o cabelo é curto, ou se têm pés pequenos. Mas sei do ar que as toca sem que elas saibam. 

Respiro-o e quase sufoco...quase grito, quase lume, quase dor, quase raiva!... 

Não vejo a multidão, mas sei que caminho entre ela e afasto-me. 

 Amo a solidão. A solidão do ar que existe entre as coisas, uma espécie de poema, que depois que se respira, já não te larga. 
Não importa por onde passe, vou sempre só.

A verdade ...é que sempre me bastou o deslumbre do ar do caminho, sem pensar, ou sem saber, que um dia, isso me levaria a chegar a alguma parte. 

Passo por ti sem te ver - direi um dia - mas sei que por ti passo, porque me detenho. 
O ar que vai da minha boca à tua, tem a demência do beijo. 

E eu respiro-o. Uma loucura qualquer que se abraça e me pede para abrir os olhos. 
Passo por ti, vejo o ar que vai dos meus olhos aos teus. 

E eu respiro-o 
e sei
e vejo 
que finalmente cheguei...

Saberás tu?


   © Sónia Micaelo

02 junho, 2020

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arde-me nas mãos 
o único que escrevi à rebeldia do medo 

entre o quase tudo 
o nada 
entre o que falta e o que sobra 
tu o corpo e a coragem 

olhaste nos olhos da manhã sem lhe veres a ternura 
{ já ninguém vê para além da cor dos olhos } 

não há verdade ou mentira 
apenas incógnita 
a calcar algo que possa haver de profundo 

e eu repeti o que agora arde ...e arde.. 
no âmago da entrega 
"o que for...que seja ...que seja o que for" 

e foi ... 
tudo o que quiseste meu bem 

uma folha mais
às costas de um verso seco...   

*

Sónia Micaelo   

(Imagem no Pinterest)

30 maio, 2020

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resta sempre o vácuo 
onde a descrença germina

e a dor...

finges atravessar incólume 
as margens ausentes
a noite e a rotina

no degredo dos dias
nem percebes
que a alma suspira em 
leito estéril 

enquanto que a vida
que se não vive

sobra...

*

Sónia Micaelo

*

(Imagem no Pinterest )

11 maio, 2020

 



Procuro nos teus olhos 
a fibra do verbo 

algo que diga amar 
frente ao abismo de um verso desfeito 

entro inteira na imagem onírica 
 que o espelho devolve 

uma superfície de brumas teima 
 em estender-se pelo corpo 
mas todo o meu sangue se acende 
no grito da ave faminta 
que por ti chama. 

As tuas mãos, meu bem, as tuas mãos... 

o desígnio, a flor do instante 
onde um deus insano 
tece um poema tardio 
e vem beijar o meu peito em ruínas .

*

Sónia Micaelo, 
in "SER MULHER III" 
Vários Autores | Edt. Mosaico de Palavras ( a editar, Outubro 2020)

*

Fotografia de Laura Makabresku

04 maio, 2020

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sabes, meu bem
o coração não obedece 
 às marés 

nem à idade da rosa 
que desflora sobre a mesa

às vezes em sonho chegas 
recolhes o choro dos pássaros 
e demoras 

ocultas-te entre a madrugada
para não deixar passar o vento

Inconformado deixas um grito
aos pés da terra e partes

partes sempre com as  mãos cheias
de maresia inacabada...

*
Sónia Micaelo
 (todos os direitos reservados)

(Imagem sem autor mencionado)

05 abril, 2020



Podia agora perder-me neste sorriso. 
Não fosse o nosso destino
uma dor de lonjuras. 
E as mãos 
este lugar frio com ruas vazias. 
Não fosse adiada a Primavera, 
com que sempre me recebes ,
nesses teus olhos lavados de ternura 
à espera de um novo abraço. 



"Era Abril...mas podia ser Agosto." 
Notas do meu diário 

Sónia Micaelo 
05/04/2020 

 Imagem, eu e o meu pai.

18 janeiro, 2020

A saudade é um lugar de solidão.
Um lugar sem fim, de onde parto e regresso. 
Um lugar que muda, sem que nada mude, 
ou tudo se transforme. 
Um lugar de portas fechadas, paredes frias. 
Um banco gelado, num jardim que desconheço, onde me sento e sorrio 
a todos quanto passam... 

Sónia M

26 outubro, 2018




Já não sei regressar.
A mão que ampara, também  puxa e prende, 
escondendo a poesia aos pássaros. 
Nos dias que ensaio o voo, preparo o cenário. 
Um céu azul, desbotado, pende de uma gaiola dourada. 
Cinco ou seis gatos pardos, sentados em poltronas gigantes,
 fingem que aplaudem. Aguardam. 
Eu abro os braços e todo o meu corpo é uma cruz. 
Quanta beleza transpira em cima do palco onde me vês?
A dor é um poema, que se enrola à ferrugem das grades.
E eu já não sei regressar, meu bem. 
Asas batem e batem , cansadas, em frente a um chão de gatos...

Sónia M

Imagem, Noell Oszvald

06 outubro, 2018

NOSSAS MARCAS NO TEMPO...


Trago dentro do meu coração, 
Como num cofre que se não pode fechar de cheio, 
Todos os lugares onde estive, 
Todos os portos a que cheguei, 
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, 
Ou de tombadilhos, sonhando, 
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(Passagem das Horas, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


Imagem, Sónia M

07 maio, 2017

AS MÃES

       
 



AS MÃES


as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro 
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa 
de onde nunca partimos 

as mães são eternas 
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia 
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Sónia M

Ilustração, "Crush" by Katie m. Berggren