Nunca tive grandes ambições.
Nunca procurei um corpo, pele, casa, carro, coração ou amores.
Amaram-me sempre mais, do que aquilo que eu podia amar. A doação, que se finge incondicional entre duas pessoas, é como um eco que se espalha nas veias, uma mortalha à própria natureza.
E eu não podia,
não queria,
não quero,
não posso, perder nada de mim!
Não por achar ser valioso, mas sim por saber que é quase nada... Não se consegue entregar parte de coisa nenhuma.
Cedo descobri que o ar que existe entre as coisas, é o que realmente me fascina.
Passo na rua sem ver a rua, sei que caminho na rua, porque o ar, que existe entre a calçada e os meus sapatos, é frio, vazio...
Eu respiro-o ...e sei que vou na rua.
Passo no jardim sem ver as flores.
Mas sei que caminho no jardim, porque o ar, que vai da flor à borboleta, é leve e morno, uma gentileza à sua breve vida.
E eu respiro-o e sei que caminho no jardim.
A multidão é o que mais assusta.
Passo sem ver as pessoas, e evito tanto olhar para elas, que nunca chego a conhecê-las. Nunca sei se o nariz é grande, o cabelo é curto, ou se têm pés pequenos. Mas sei do ar que as toca sem que elas saibam.
Respiro-o e quase sufoco...quase grito, quase lume, quase dor, quase raiva!...
Não vejo a multidão, mas sei que caminho entre ela e afasto-me.
Amo a solidão. A solidão do ar que existe entre as coisas, uma espécie de poema, que depois que se respira, já não te larga.
Não importa por onde passe, vou sempre só.
A verdade ...é que sempre me bastou o deslumbre do ar do caminho, sem pensar, ou sem saber, que um dia, isso me levaria a chegar a alguma parte.
Passo por ti sem te ver - direi um dia - mas sei que por ti passo, porque me detenho.
O ar que vai da minha boca à tua, tem a demência do beijo.
E eu respiro-o. Uma loucura qualquer que se abraça e me pede para abrir os olhos.
Passo por ti, vejo o ar que vai dos meus olhos aos teus.
E eu respiro-o
e sei
e vejo
que finalmente cheguei...
Saberás tu?
Saberás tu?
© Sónia Micaelo








