19 setembro, 2021

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Sónia Micaelo, in ÁGUA SILÊNCIO SEDE- Antologia de 123 autores em homenagem poética a Maria Judite de Carvalho.

( Poética Edições, set. 2021)


“ O grande olhar vidrado 

   daquele olho de vidro

   de quadrante quadrado 

   de tempo dividido ;” 

                           

Tropeças num rosto;

charco de vida, encantada

arrastada pelo tempo

“Sem sonhos e sem nada".


Boca e palavra que aberta

às sombras desta hora

é voz que respira e grita

a ausência que ainda chora.


A solidão é de pedra,

pedra ao charco atirada,

onde de súbito me vejo

ave sombria

perdida

nos teus olhos pousada. 


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Os versos entre aspas são da autoria de Maria Judite de Carvalho ( 1921- 1998)

28 agosto, 2021

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 Arrasta a casa por todas as ruas.

Por todas as cidades  

e países que atravesses.   


Que nenhum nome te arda. 


Sente os pés, 

passo a passo, 

o estômago, 

a cintura,

peso e pedras. 

O sinal de nascença, 

a respiração do pai nos caminhos 

sem eira. 

As largas mãos do destino,

o relógio de cuco do avô nas paredes da memória 

e o seu exército de criar ruínas. 


Mantém aberta a porta, longe do medo

e as paredes  caiadas de branco, 

sem  dobrar os joelhos.


Segura o beijo da mãe,

entre os dentes,

ao atravessar a ponte da ausência.


Que                              Que

nenhum                       nenhum

nome me arda.           nome me esqueça. 


Sente a tristeza 

e canta a alegria.

Longe do medo, bem longe do medo.

Sou eu a casa:

fachada de sonho e inocência

e esta é agora a minha morada.


- Voltar ao princípio em cada fronteira.


©Sónia Micaelo

(Texto e imagem)

25 agosto, 2021

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 líquida distância

a rasar a boca do verbo


metade gente,

metade quimera,

num corpo translúcido, desejo

metade obstáculo, uniforme 

e uma nesga de luz

a queimar os ombros

do que seria

se apagássemos todas as sombras



Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)

16 agosto, 2021

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procurei-te por toda a parte

céu noturno sem estrelas extintas


debruçada sobre a tua ausência 

fui quase sempre este denso vazio


uma folha arrancada em declínio 

peleja em vão o hiato

e esta inocência da busca

a pureza do primeiro veio

este tudo do nada


pequeno sopro de vento

que na voragem do real

roça a superfície 


e chora


©Sónia Micaelo


(Imagem no Pinterest)



06 agosto, 2021

Uma mulher à janela





 uma mulher à janela 

beija o acaso tocando a vidraça 

e Inexplicavelmente a rua para


tanto menos

tanto mais 

que uma mulher à janela


metade vidraça 

metade mistério 

ilegítima visionária 

prisioneira do horizonte que limita


um gato vadio 

na beira do telhado

respirando o azul 

bebendo o ocaso

é vertigem 

parca esperança 

desejo abstrato 

do que nunca soube. 


                                   Sónia Micaelo 

                                (Texto e imagem)


03 agosto, 2021

UM QUASE POEMA À SAUDADE QUE TE TENHO



Todos os dias lhe oro.
Qual deusa sem olvido.
Se lhe choro ela sorri.
Aperta e sorri. 
Sorri enquanto lhe choro:
 o cansaço do cá e lá 
 de nenhuma parte quando parte.
Nenhuma!
Nunca o seu sorriso se esvai
nem o aperto se esfuma.

Manta de retalhos mal bordada
que dobro e puxo. 
Puxo e empurro.
Por entre o sal e o cansaço
nada pesa mais que o sorriso dela.
O sorriso e o murmuro:

"A tua força vem do ventre."

E é ao ventre,
ao ventre...
ao ventre...
que sorrindo regresso.

©Sónia Micaelo 
03/08/2021

31 julho, 2021

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há pequenos grãos que ao tocar a terra 

se fazem raiz

capaz de segurar o voo de mil pássaros


conheço o que nomeias 

para além do dizível


as palavras 

também expelem grandes distâncias


depois disso

tudo é muito longe 

para a ave que caminha

-o amor e a cegueira-

e jamais se regressa ao lugar sagrado do antes


encontrar flores na lucidez 

do caminho que te espera

será sempre um acto de coragem


©Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)

28 julho, 2021

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Chovia nesse dia.

E o homem 

pesava na terra. 

Chuva

chumbo no casaco roto.

E a vida,

aquela chaga vestida,

que todos sabem que existe,

em silêncio vergava.


Que segredo é este

que a ave guarda,

qual o mistério o que julga, 

ou quanto choro despreza,

que ao invés de pranto se ouve um canto?


Chovia nesse dia.

Chuva 

em olhos de ave que passa.


©Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)


18 julho, 2021

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Sabes, meu bem, 
há dias maus e dias bons.
Há almas em constante desassossego
e outras que são pura paz.
Há quem precise estar, ou ser, do contra,
para fazer valer a sua existência. 
E há os que se adaptam, seja ao que for,
para poder existir. 
Mas nada é absoluto:
Nem a paixão, ou a revolta, que te domina;
nem o amor, ou a impotência, com que te olho.
Há tantas vozes na razão, 
que não te permites ouvir...

©Sonia Micaelo 
(Texto e imagem)

17 julho, 2021

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Os cabelos da tempestade a abençoar 

as misérias da rua. 

Toda a minha vida cacei arco-íris.

Andei por entre as ruínas do homem,

sem saber a que deus rezar.


©Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)

Antuérpia,  17/07/2021