22 janeiro, 2023

Domingos




A estrada principal atravessa a freguesia,
qual tronco de árvore, com  poucos ramos a este e a oeste 
imitando as ruas de pararelo irregular.
E eu folha caduca , assombrada por dias uniformes. 
Com alguma sorte sobraria tarde  para a solidão,
antevendo sem nexo o lugar da queda. 

A seguir à missa, o almoço. E a hora das visitas; 
os avós, as tias, os padrinhos. 
 Por entre as conversas dos adultos,
" És a mais nova. 
Esperas pela tua vez para falar. 
E quando chegar a tua vez, calas-te!", 
 escapulir-me até à casa da "J". 
Falar ao desbarato, opiniar sobre tudo. 
Ouvir, mutuamente, descobertas de uma  curta existência.
Gravá-las como segredos numa cassete,
e enterrá-la como um tesouro,  
na sombra de uma oliveira.

E esperar...que um vento inverso venha punir a rotina, 
fumando o cigarro que roubámos ao pai
como quem fuma a seguir ao sexo,
ignorando que a vida nos atravessa ao contrário.
Primeiro o orgasmo. Depois a saudade. 



©Sónia Micaelo 
Memórias da primeira gaveta 
(Excerto)

Fotografia, ©Nuno Clavinas 


03 janeiro, 2023

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em cada passo

a memória engastada,

como deve ser.


esquecer é perder o verbo, o tino. 

um espinho que rasga o caminho

- sem raiz nem rosa - do porvir.


seja leve ou intenso, 

mas que seja:

- coração palpitando na estrada.


mais que simples comboio que passa,

com hora marcada.

mais que leve tremura nos alicerces da casa.


©Sónia Micaelo

17 dezembro, 2022

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Não sei palavras que sirvam 
para atenuar o peso dos lugares vazios à mesa - a doer nos ossos - de quem ao lado se senta a sentir a ausência.
Não existem palavras, ou fórmulas mágicas, que nos salvem das tragédias da vida. 
Eu não as tenho, nem nenhum de nós as tem. 
A vida está para o verbo perder, como o verbo perder está para vida. 
Dizer, o que quer que seja, parece inútil.

Porque nada que eu diga, mudará 
uma vírgula no que acontece no mundo. 
Não parará, certamente, a guerra.
Nem estancará a tua dor. 
Nada impede o frio da cidade.
Nem os cobertores distribuídos, perfumados de bem-querer, 
resistem às temperaturas da noite, por quem adormece no chão, 
na esperança de um amanhã. 

Observo e sinto todas as solidões, a que somos submetidos - a descrença, os julgamentos precoces, a violência gratuita, o xenofobismo - e descubro palavras que, independentemente da religião, ou da força que nos move, todos partilhamos. 
Porque todos as somos - espírito, luta, alma, esperança - todos!

É quase Natal. 
E a magia do Natal confunde-se com a azáfama das prendas. E com as pequenas hipocrisias que cometemos, numa tentativa de espiar pecados.
A consciência da época, que perdemos ao longo do ano. 
O ser por todos o que ninguém é por ti.
A utopia à venda. De barbas brancas, tentando sobreviver ao esquecimento,  
grita nas ruas iluminadas - OH OH OH! 

É quase Natal.  
E nada impede o frio da cidade. 
Mas um pequeno gesto, centelha a lembrar ternura, é o que impede o frio de entrar em mim. 


©Sónia Micaelo
(Texto e imagem)



06 novembro, 2022

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deixa      que a luz te brilhe

brilha     que a luz te olha

agarra-a de peito livre

livre        a luz te colha


como quem arde e regressa, 

para tornar a arder, assim galopa o mistério

- de veias abertas - no dorso do mundo


©Sónia Micaelo


03 novembro, 2022

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para falar-te é preciso

focar-me no nomes das coisas:

janela,

um dia porta, aberta ou fechada,

que chave?


e lembrar-me do nome da rua onde:

abraço, sorriso, língua, boca,

em que cidade?


para falar-te é preciso saber 

que o som do trovão 

não é maior que uma lágrima:

relâmpago.


e que saibas que nada é vazio ou sem nome

tempestade ou arco-íris

tudo toca o chão, ou o céu,

que pisamos.


©Sónia Micaelo

16 julho, 2022

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casa



dá-me a cor do vento

com paredes do sonho

e nas traseiras um jardim suspenso

com tulipas brancas a nascer

como quem cai do céu a sorrir


e um canteiro de estrelas

que suspire o dia inteiro

por um pouco mais de lua


deixa intocável 

o som das sombras que me circundam

e comigo se sentam 

a uma mesa feita de nós cegos 


pedes-me  uma única cor 

e cheiras sempre tanto a sol


e eu 

tremendo

por entre a penumbra 

tentando decifrar a cor do vento...


 ©Sónia Micaelo 

(Texto e imagem)


10 julho, 2022

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Ao domingo a palavra sobra-me.

Ao domingo a palavra falta-me.

O domingo foi sempre um barco parado, 

sem rumo, bem no centro da minha existência. 

Um vazio que nasce quando o dia acorda mudo, 

sem que nada o preencha ou o afaste.


Ao domingo disfarço o silêncio 

com um sorriso oco - que todos devemos sorrir 

e ser felizes sempre; 

e bonitos; e sábios; e capazes! 

E todos são tudo isso e sempre mais. 

Agora eu? Eu não gosto do domingo. 

A não ser quando a voz da minha mãe 

galga a distância, que vai do agora 

à hora da missa, ralhando

que vou chegar atrasada. Ouço-a 

como se me gritasse de uma das margens.

E eu num barco parado 

bem no centro da minha existência.  


Não ouço os sinos, nem a reza, 

ou o amém, mas distingo o deslumbre 

daquela primeiríssima palavra que ouvi ao padre 

e corri ao dicionário para saber se existia, 

passando a usá-la até à exaustão - blasfémia!


A palavra sobra-me ao domingo.

O domingo é a blasfémia

 - não fosse a voz da minha mãe ... - ou 

eu sou a blasfémia do domingo. 


©Sónia Micaelo



03 julho, 2022

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por entre a busca e o desassombro 

um silêncio entregue às brumas do corpo 

e uma voz palpável na intimidade do vento

- como quem beija uma flor 

pétala a pétala - ocupa o vazio 

deploravelmente inteiro


©Sónia Micaelo