05 junho, 2021

O Perfume.




Ter a fala da flor,
eis o meu mais secreto desejo.
Ser a voz no perfume
sem óbice da língua;
a palavra que se exala
mesmo à boca fechada.


©Sónia Micaelo
(Texto e imagem)

29 maio, 2021

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Delicada é a flor de um gesto. 
Qual brisa de esperança 
sorrindo à ternura; 
aromas de bem querer, 
por onde a gentileza passa.



©Sónia Micaelo
(Texto e imagem) 

15 abril, 2021

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O  pássaro conhece o valor da nuvem. 
Sabe do cheiro da água 
na boca do entardecer. 
E tantas vezes beija a terra 
para colher o alimento.  

O pássaro percorre os céus 
e o ser sem pensar no sentir. 
Existe. Assim de simples. 
Fazendo parte de todas as coisas. 

O pássaro sabe do canto e encanta.  

Desconhece que a voz do homem 
produz sons de clausura. 
Nada sabe da palavra que se quis... liberdade. 
Mas sabe Ser. Livre. 

Amo os pássaros mais que a palavra. 
Ser, perto do voo, sem ruído de correntes.
 
©Sónia Micaelo
 (Texto e imagem) 


10 abril, 2021

Líquido rumor


Nuvem que absorve o milagre,
de onde vem, para onde vai? 
Só ela o sente, só ela sabe 
do segredo líquido que cai 
e acorda os bichos da terra. 

Alguém o bebe 
e o milagre se esvai. 
Mas por dentro gravando 
o segredo que encerra 
o nome de um deus, uma prece de santo. 
Líquido rumor florescendo 
nuns olhos lavados de pranto. 

Coberto de sede e olvido, um lençol 
se desprende do azul e esvoaça. 
Uma gota num rosto acende um grito 
e a esperança de um beijo 
da ave que passa 
por entre os dedos do sol. 

 ©Sónia Micaelo 
(Texto e imagem)

03 abril, 2021

As palavras tardias - Texto de Maria Judite de Carvalho


Recordando
Maria Judite de Carvalho
(1921 - 1998)
Considerada uma das vozes femininas mais importantes da literatura nacional
do século XX

28 fevereiro, 2021






aprendias a andar no escuro
traduzias o silêncio
com a claridade de um cego

construías janelas em lugares sem luz
e avançavas pela casa sem ruído 
delicadamente
sem assustar a solidão 

admiravas as paredes vazias
como se visses para lá dos abismos 
que as construíram 

tentavas abraçar todas as sombras
colocando uma luz
que não era mais que a tua
frente ao espelho da realidade

falavas em voo

como se algum céu 
esperasse ainda
pelo pássaro de pedra

meticulosamente esculpido 
nas mãos do destino...


©Sónia Micaelo 
(Texto e imagem)

09 janeiro, 2021

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nunca saberei se foi a crueldade 
ou o medo
a ferir as estações da ausência 

inventei verdades de seda
para abrigar o teu silêncio 
e bati tantas vezes às portas da tua incerteza

tu medias os anos à alma 
e contavas pelos dedos 
há quantas vidas a tua boca amarga
seduzia o corpo da solidão 
como se fosse uma mulher sem voz 
nem rosto

e na invisibilidade da existência 
fosse seguro despir-lhe o ombro 
tocar-lhe o joelho
ter as coxas da noite a arder na sede 
dos lábios 

sem ficar irremediavelmente perdido 
na escuridão 

chamei-te tantas vezes...
como tantas foram as que não ouviste 

lias a mesma página de um livro
que há muito escreveste 
uma e outra vez
como uma tristeza demorada 
permanente 
onde a paixão é coisa breve
disfarçada de eternidades
a inscrever num verso roto

nunca saberei
nunca tu saberás...
da loucura 
nem das sementes dos meus dedos
na aridez dos teus dias


Sónia Micaelo 

*

Arte, Michal  Mozolewski


05 janeiro, 2021

OS DIAS NÃO ANDAM SATISFEITOS - Poema de Joaquim Pessoa





Desta forma desejo a todos um Feliz 2021! 
Haja saúde. Haja abraços. Haja liberdade para ser feliz.

Deixo um abraço e o meu carinho.

Sónia M

20 dezembro, 2020

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A loucura, meu bem, 
foi tentar agarrar o canto dos pássaros 
e a nudez dos ramos, 
a ouvir histórias do vento que passa. 
Entender na imagem o murmúrio das folhas caídas, um manto de preces a proteger raízes. 
Esta foi a loucura, meu bem, 
querer oferecer-te numa imagem 
a magnífica sinfonia das árvores. 
E trazer aos teus olhos, nada mais, 
que o silêncio que atravessa a ponte... 


 Sónia Micaelo
(Texto e imagem)

02 dezembro, 2020

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um fio 

de demência 

que aperta o rosto da noite


um cansaço 

sem sono

uma dor 

sem clemência 

um vazio 

sem parede

num peito 

sem dono

a porta fechada


um sexo 

ofegante

uma leveza sem pássaro 

uma nuvem 

indiferente

uma garganta 

sem choro

uma folha 

rasgada


um verso 

doído 

um sorriso 

sem gente

uma boca 

um abismo

um poema sem nada...


              Sónia Micaelo 


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Imagem, Adri Luna