03 novembro, 2015

Maçã e canela




Atravesso o tempo , o espaço, a distancia virtual ,o momento
a oculta imensidão da memoria
de olhos fechados absorvo o cheiro
tacteio silenciosamente os odores das cozinhas antigas
poeira de canela no ar, imensos sentimentos
esvoaçam no tampo da mesa, à superfície da pele.
Nada é transcendente no sabor do poema
nem na brancura do naperon
nem o acordar na fragrancia das manhãs
apenas o odor das mães me abraça
no céu da boca
um pedaço de tarte de maçã!!!

......................São Gonçalves


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A casa cheira a maçã e canela, lembra a Outono (não sei bem porquê...). Foi para isto que hoje me deu  - uma espécie de poesia do paladar. 

E foi poesia o que recebi em troca, ao partilhar, virtualmente, a minha sobremesa. 
Obrigada, São, pelo poema!
Há coisas que nos sabem tão bem... 
Boa noite para todos vós!

Sónia M


22 outubro, 2015

Fosse a minha voz um anjo...




não sei se há ainda estrelas 
que guiem caminhos
ou caminhos para ti
nesta noite...

os teus olhos cor de lua
procuram a última porta do destino

uma entrada sem saída
num céu sem cansaço 

fosse a minha voz um anjo
de mãos grandes
a abrir pequenas janelas 
nas paredes do teu quarto
em ruínas

talvez te conseguisses escapar 
por alguma delas...
acrescentar dias aos anos 
e estradas à vida

fosse a minha voz um anjo

a cantar para ti 
como nos dias mais antigos
em que me sorrias 
como uma Primavera!
e as tuas mãos eram o rio
para onde eu corria a beber ternura...

tivesse eu um grão
de uma qualquer magia já extinta
que pudesse romper a barreira 
das mais improváveis distâncias

e esta noite
faria o único possível

cantaria para ti...
até adormeceres todos os sonhos...

Sónia M








29 setembro, 2015

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a solidão morde a gaiola
onde pássaros de asas líquidas
adormecem o voo

podias ser chave
uma janela aberta
se quisesses

podias ser mais
que este véu de agruras
a embalar as brumas

podias ser o vento
que sopra a luz
para mais perto

de tudo quanto podias
podias ser...

olha-me
ainda que imagem breve
sou eu os pássaros
sombra de asas

se não posso ser o voo
serei o rio
rio de penas
ou de luz

a encontrar caminhos
por entre as tuas mãos côncavas...

Sónia M


(Imagem sem autor mencionado)


23 setembro, 2015

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ÂNCORAS de RITA MENDES

Âncoras todas em redor.
Pedaços de rede, algas secas,
Madeira da que serviu para os barcos
Algumas moscas gordas.

Os meus pés no lodo do rio
E ainda o rio
Naquilo que é da saudade
Pelos canais.

Há de ser Outono agora
Que o frio tem âncoras
Que o Verão não tem.

Há de ser Outono que o sono se dorme mais seguido
E a gente precisa das mantas
E a gente precisa da gente
E a gente por precisar tem âncoras
Que o calor que é tremendo,
Não tem.

Quando solar a alma vai bem.
Nua entre as vagas
De culpa quase líquida
E memória em tez queimada.
Sacode os fiapos das redes
Não se avistam madeiras nem moscas.

E, no entanto,
E ainda,
O rio.

Cobre-me
De âncoras
E lodo morno até aos joelhos
E mais para cima.
Trabalha a madeira e pinta-a de uma cor coral
Ao meu tamanho.
Cobre-me.
Para que eu percorra o que vai
Entre margens.

--------------------------------Rita Mendes

Pintura, viktor zhmak

13 setembro, 2015

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de ti queria as coisas que não tenho
o que me falta e não consigo
o que não posso
ou ao que não me chega a coragem

queria o segredo dos que dormem
numa paz inexistente 

queria o sonho
dos que ousam acordados

pintar numa hora que seja
um minuto de sonho
que vingue ou que valha

queria o sonho
de ti queria um sonho!

ou ao menos
antes que durma vazia
cansada de tantas realidades 

que me dissesses ao ouvido 
bem baixinho 
a que cheira um sonho 
ou a que sabe...



Sónia M 

06 setembro, 2015

...



do avesso a terra estremece
e as árvores sacodem os ninhos

com as penas farei um telhado
que me abrigue desta chuva ácida

com o sangue desenharei uma janela
e nela deixarei pendurado um grito

se já não sou da terra que trago no peito
farei do vento a minha casa

a partir de hoje
já não quero ser homem, nem mulher ou menina
serei apenas o pássaro da minha cabeça

e voltarei a partir
para lá desta lonjura

onde talvez
com um golpe de sorte
ou de asas
também me vejas...

Sónia M

(Não. Isto não é um poema de amor...)


Imagem de Sophia Alexis
http://www.flickr.com/photos/sophiaalexis/8701389195/in/photostream

05 setembro, 2015

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A novidade causava delírio na praça
Alguém lembrava um profeta.

Dizia que até as pedras
endoideceriam de espanto
quando um homem
encontrasse outro homem

que o fosse
sem querer parecê-lo...

Sónia M

Escultura de Pablo Gargallo - De Profeet, 1933
Middelheimmuseum Park - Antwerpen, Bélgica


01 setembro, 2015

Feitos de vento...



..ainda me estremeces no peito
como arrepio de um sopro de vento

o teu nome inscrito na mudez de um grito
que se faz ouvir na noite

a nitidez da memória
de uma tarde quente

a placidez dos gestos
a esconder o desassossego do ventre...

e o corpo... 
...tão perto 
no encontro sereno da fala...

os olhos 
bebiam o horizonte distante
como se soubessem
que o retrato que me tiravas à janela
{já tão antigo!}
seria este silêncio de agora 
que de nós não parte...

o murmúrio das árvores lá fora
ensurdecia os pássaros mudos 

 e nós 
fomos a plenitude 
de um único intervalo 
já tardio na vida...

ficámos feitos de vento  
amor
dor de um destino que chamei rebelde

uma espécie de angustia em mim cravada
por haver chegado sempre tarde...

amor
não gosto dos dias 
em que não se ouvem os pássaros...
  

Sónia M


Imagem, Óleo s tela, por ©Arthur Braginsky

30 agosto, 2015

Na boca da papoila

Da boca da papoila
saía um mar sem pressa

um peixe descia até ao cais
para dar as boas vindas
às pequenas embarcações
que se aproximavam

traziam as verdades dos homens
inscritas nas velas

ao tocar as margens improvisadas
desfaziam-se
uma a uma
como se fossem de papel...

uma mulher na praia
roía a solidão dos búzios

quando o sol se deitava nas águas
ajeitava o seu vestido de conchas
e cantava às gaivotas

canções que falavam
na boca da papoila
e dos barcos que se perdiam nas águas
das verdades mais navegáveis...

Sónia M







Da janela do meu quarto...

Por aqui a lua
vive no coração das nuvens
ciosas da sua beleza.



Sónia M


Fotografia, Sónia M