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13 setembro, 2015

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de ti queria as coisas que não tenho
o que me falta e não consigo
o que não posso
ou ao que não me chega a coragem

queria o segredo dos que dormem
numa paz inexistente 

queria o sonho
dos que ousam acordados

pintar numa hora que seja
um minuto de sonho
que vingue ou que valha

queria o sonho
de ti queria um sonho!

ou ao menos
antes que durma vazia
cansada de tantas realidades 

que me dissesses ao ouvido 
bem baixinho 
a que cheira um sonho 
ou a que sabe...



Sónia M 

06 setembro, 2015

...o amor não é cego





o amor não é cego
mas tem falta de vista

{só vê bem ao longe}

do avesso a terra estremece
e as árvores sacodem os ninhos

com as penas vou fazer um telhado
que me abrigue desta chuva ácida

com o sangue farei uma janela
e nela te deixarei pendurado um grito

se já não sou da terra que trago no bolso
farei do vento a minha casa

a partir de hoje
já não quero ser homem, nem mulher ou menina
serei apenas o pássaro da minha cabeça

e voltarei a partir
para lá desta lonjura
onde talvez
com um golpe de sorte
ou de asas
também me vejas...

Sónia M

(Não. Isto não é um poema de amor...)


Imagem de Sophia Alexis
http://www.flickr.com/photos/sophiaalexis/8701389195/in/photostream

05 setembro, 2015

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A novidade causava delírio na praça
Alguém lembrava um profeta.

Dizia que até as pedras
endoideceriam de espanto
quando um homem
encontrasse outro homem

que o fosse
sem querer parecê-lo...

Sónia M

Escultura de Pablo Gargallo - De Profeet, 1933
Middelheimmuseum Park - Antwerpen, Bélgica


01 setembro, 2015

Feitos de vento...



..ainda me estremeces no peito
como arrepio de um sopro de vento

o teu nome inscrito na mudez de um grito
que se faz ouvir na noite

a nitidez da memória
de uma tarde quente

a placidez dos gestos
a esconder o desassossego do ventre...

e o corpo... 
...tão perto 
no encontro sereno da fala...

os olhos 
bebiam o horizonte distante
como se soubessem
que o retrato que me tiravas à janela
{já tão antigo!}
seria este silêncio de agora 
que de nós não parte...

o murmúrio das árvores lá fora
ensurdecia os pássaros mudos 

 e nós 
fomos a plenitude 
de um único intervalo 
já tardio na vida...

ficámos feitos de vento  
amor
dor de um destino que chamei rebelde

uma espécie de angustia em mim cravada
por haver chegado sempre tarde...

amor
não gosto dos dias 
em que não se ouvem os pássaros...
  

Sónia M


Imagem, Óleo s tela, por ©Arthur Braginsky

30 agosto, 2015

Na boca da papoila

Da boca da papoila
saía um mar sem pressa

um peixe descia até ao cais
para dar as boas vindas
às pequenas embarcações
que se aproximavam

traziam as verdades dos homens
inscritas nas velas

ao tocar as margens improvisadas
desfaziam-se
uma a uma
como se fossem de papel...

uma mulher na praia
roía a solidão dos búzios

quando o sol se deitava nas águas
ajeitava o seu vestido de conchas
e cantava às gaivotas

canções que falavam
na boca da papoila
e dos barcos que se perdiam nas águas
das verdades mais navegáveis...

Sónia M







Da janela do meu quarto...

Por aqui a lua
vive no coração das nuvens
ciosas da sua beleza.



Sónia M


Fotografia, Sónia M

18 agosto, 2015

...nosso sangue...


Amo
cada gota do teu/nosso sangue.
Cada gesto 
cada abraço 
cada riso 

cada lágrima.

E amo-te tanto!
Que te levo comigo
em cada poro da pele
em cada fio de cabelo.

A ti te deixo
o que penso
e o coração.

E nada me custa mais
do que hoje deixar-te...

Por mais que o tempo
Nos faça lutar por cada dia.
Esta é a minha/nossa sorte:
{a minha alegria}
a ternura entre nós nasce aos cachos...


Sónia M

(À Mulher com nome de flor...)

Pintura,  Tanya Torres

04 agosto, 2015

Sereia...


Sereia, sabes que a vida é isto:

tropeçar, por vezes, num abismo

e encantar com o canto, 
com a força e com a coragem,
com que se derrota e pisa a besta do medo. 
E erguer-se altiva, 
trazendo os teus ao cimo das águas,
porque teus são os mares...
...o dia...
...e a vida...


Sónia M

À Daniela 
(A minha Sereia)

Pintura, Marco Busoni 

Alentejo



Neste país, nem sempre se vê a lua.
Às vezes o que não vejo dói-me.
Uma parede branca.
Uma cadeira de recosto.
Uma porta aberta.
Um rosto cansado olhando as estrelas
agradecendo uma pequena brisa
num Agosto tão quente.
Meu Alentejo!...meu mar de campo
sem onda que lhe valha.
Meu berço perdido...água parada...

Diz-me
se esta lua que hoje não vejo
te ilumina as ruas?
Se embeleza ainda
a história da(s) tua(s) ruína(s)...


Sónia M

Fotografia, Fortaleza de Juromenha, de Sónia M

13 junho, 2015

Infinita mente



Há a ilusão no caminho
de que a chegada é um vazio.
Um nada 
elevado ao infinito.
Infinita mente abismo.

A clareza
com que se encara o horizonte
que nos espera
faz-nos perceber
o pouco importantes
são os enredos desta vida.

Infinita mente vã.

Ouve-me.
Como se fosse a minha voz
a faca que corta 
o abandono que te prende.
Nada mais tenho para dar-te
do que este canto...

Sou infinita! 

Infinita mente amor
mente dor
mente pássaro
mente só...
Infinita...

{E tu também és, acredita!}

Um dia
deixarás o peso das penas
e serás a terra
que acama as raízes de uma árvore.
Farás parte da folha que nasce
da folha que cai
e do ninho do pássaro.
Serás o que és
infinitamente em toda a parte
infinito.

Um poeta segredou-me 
que não existe morte.
E eu acredito no poeta.

É este o horizonte de que falas.
Infinita mente início...


Sónia M

Pintura, Alexander Dmitry Sulimov


18 maio, 2015

Não esqueças, meu anjo...


não esqueças
meu anjo
não esqueças
guarda bem o que te digo

de tudo o que vês
te tornas parte
só de ti depende a parte que sejas

se não poderes ser cura
sê o alívio
de algum pássaro ferido
que encontres

sei que este lugar dói 
de tão oco
ruas inteiras cheias de pouco
olhos vazios que brilham por nada

mas não desesperes
meu anjo
não desesperes

constrói uma jangada de gestos
e atravessa com ela todos os mares

as fadas
{quase extintas}
vivem entre os teus dedos
e as tuas mãos
ainda pequenas
guardam toda a magia do peito

e se ainda assim
um dia
tudo parecer feio e pesado

não esqueças
meu anjo
não esqueças

voltarás a encontrar a grandeza do mundo
seguindo o barulho de fundo
{quase inaudível}
das coisas miúdas.

Sónia M

Aos meus filhos

Imagem, eu e os meus filhos.

20 março, 2015

Cartas...



Não sei o que me falta ainda dizer-te,
ou se aquilo que digo, o digo vezes que cheguem.
Estes últimos anos tem sido tudo à míngua.
As palavras, as idas à horta, para colher a alface fresquinha,
as risadas à mesa, as sobremesas da mãe, os abraços...
Ai os abraços!...(e eu que estou tão longe...)
Faltas-me. Faltas-me sempre.
Uns dias mais que outros.
Hoje o sangue gritava mais alto e o peito apertava,
por não te ter, ali ao virar da esquina.
Estava frio, mais que ontem. Estes dias são sempre mais frios.
Voltei a apanhar-me a rezar ao Tempo. Não a Deus, mas ao Tempo.
Não ao tempo, que faz, mas ao Tempo que tenho.
É a ele que elevo as minhas preces. Peço mais tempo, para mais palavras,
mais idas à horta, mais risadas à mesa, mais sobremesas da mãe, mais abraços...
ainda que tudo à mingua... (e eu que estou tão longe...)

Aprendi contigo, que nós não passamos pelos dias,
são os dias que passam por nós. Que o dia deve passar inteiro,
e nós devemos permanecer de pé. É isso que realmente conta,
estar ainda de pé, depois do dia passar. Agarrar-se ao que seja, mas ficar firme, direito!
“Enquanto eu for vivo, não cais”, dizias (e sei que ainda dizes).

Hoje agarrei-me à nossa última memória juntos,
quando num gesto apressado me estendeste a mão, mais uma vez,
e a apertaste com força.
Enquanto te escrevo, ainda sinto a tua mão na minha,
a tentar desfazer esta maldita distância.
Agora que o dia já passou, quero que saibas, Pai, que passou por nós de mãos dadas...


Sónia M






27 janeiro, 2015

Saudade

Uma voz senta-se à porta.
Canta para mim a noite toda
nua
doce
amarga.

Da sua voz sai a lua
uma ou outra estrela a suspirar vento
e uma nuvem triste
cheia de nada.

E canta as mãos
e a coisa mais ínfima.
Canta um sol quente
nesta noite tão fria
canta a alegria 
canta o chão.

E um verso excede
a voz no canto

rebenta-me nos lábios
- ausências.

Eu grito – fome!
Ela canta – sede!

Mói a noite no peito das aves
e dá-me a beber as suas lágrimas.


Sónia M


30 dezembro, 2014

A Viagem




A estação era fria. As pessoas caminhavam lentamente, arrastando pesadas malas. Num repente, comecei a ouvir alaridos de espanto. Uma velha vestida de branco, havia subido à torre do relógio e sem que ninguém soubesse como, sentou-se no ponteiro das horas. Os viajantes, aos poucos, foram abandonando a bagagem, concentrando-se por baixo da torre. Tentavam convencê-la a que descesse e ela recusava, dizendo não ser ainda a hora. Alguém chamara a policia, que tardava. Todos os olhos estavam agora postos no ponteiro das horas, até os meus, e naquela mulher misteriosa. Envergava uma camisa de dormir branca de bordado inglês, que subira até às coxas. Uns longos cabelos, completamente brancos, tocavam-lhe nos joelhos. Com as duas mãos, segurava um saco de ráfia, que parecia cheio e ela olhava para cima, com um olhar doce, como se visse estrelas e não a estrutura metálica da estação.


Não sei quanto tempo passou. O relógio da estação deixou de marcar o tempo e o meu relógio de pulso também. Desconfio que nenhum relógio funcionava. Mais que uma vez, vi entre os que ali estavam, de olhares desorientados, perguntar a uns e outros as horas, sem que ninguém soubesse responder. Incrédula, deduzi que o tempo, obedecia aquela mulher que todos tomavam por suicida. Fiquei curiosa. O que haveria dentro daquele saco de ráfia? Como se se apercebesse da minha curiosidade, a mulher olhou-me. Apontou-me o dedo e pediu-me que chegasse mais perto. Obedeci. Abriu o saco e retirou lá de dentro uma mão cheia de ponteiros, dizendo que era chegada a hora. Com uma agilidade inesperada colocou-se de pé em cima do ponteiro, ficando assim, de costas viradas para o corpo do tempo, pisando o braço das horas. Ao mesmo tempo que uma nuvem de pombas brancas, invadia a estação, esvoaçando por cima da torre do relógio e da velha, que já nem me parecia tão velha. Voltou a olhar-me, esticando a mão cheia de ponteiros e disse-me
- Isto foi teu. Perdeste tantos, como o tanto que pesa a tua mala. Vê!
Lançou-os, como se atirasse comida às pombas, que os recolheram ainda no ar, e, desapareceram com eles no bico.


Voltou a enfiar a mão dentro do saco, retirando mais um punhado de ponteiros. Desta vez olhou para a mulher ao meu lado e repetiu a operação. Repetiu-a com todos os viajantes que a olhavam em silêncio, como se esperassem a sua vez. A cada vez que o fazia parecia perder idade. Quando o saco ficou vazio, não era mais que uma criança, de uns 7 ou 8 anos. Abriu os braços e saltou. Naquele momento, um anjo caía da torre do relógio. Antes que atingisse o chão, 7 pombas agarraram-na, elevaram-na e desapareceram com ela. Consternados, os viajantes olhavam-se entre si, tentando perceber, se o que haviam presenciado fora real, ou apenas uma alucinação partilhada, que ninguém quis explicar à policia, quando finalmente chegou. O único crime que encontrou, foi tempo perdido.


Ouviu-se a última chamada para o último comboio da noite. O relógio da torre marcava agora 5 minutos para a meia noite. Após 1 ou 2 minutos de despedidas, a estação ficou vazia e o comboio cheio. A vida prosseguiu como se nada. Quando peguei na minha mala, pela primeira vez percebi-lhe o peso. Hesitei, mas acabei por a deixar ali mesmo e entrei no comboio. Afinal, a ternura é leve e não precisa de bagagem. Nenhum tempo se perde ou envelhece com ela.Talvez seja isso, o único que me faz falta, nesta viagem.


Sónia M



A todos os amigos deste blogue, desejo que a vossa viagem seja leve.

Feliz Ano Novo.

Um forte abraço.

...quando te penso.



...quando te penso
desejo sempre ter mais vidas.

Terminar uma agradecendo a próxima.
Iniciar uma agradecendo a última.

Vivê-las todas agradecendo o nome
que me puxa a poesia do ventre.

...quando te penso
há um rio de gratidão que me corre nas veias.
De quantas vidas precisaria
para a conseguir sussurrar toda?

O teu nome é a ternura
a poesia 
que com os lábios 
no ar desenho

enquanto o próprio ar que respiro
me grita
que uma vida só não chega.

...quando te penso...

Sónia M

Pintura, Hiroshi Nonami





02 dezembro, 2014

...



...e se parto, não me despeço.
Sempre chego sem que me notem.

Regresso sempre com algum lugar atado aos dedos,
um grito cravado nas unhas,
ou um rio a transbordar do peito.

Nunca sei se vou, se venho, ou se alucino.
Desconfio que as melhores viagens,
foram entre as paredes deste quarto.

Seja como for,
há sempre um voo que se derrama
numa folha de papel...
A poesia "caminha-nos" lado a lado.

Sónia M

Pintura, Roman Urbinsky

16 novembro, 2014

O Caderno


O céu desaba na rua indefesa. Chora o céu.
E em mim chove. A noite parece ser mais noite,
mais escura, quando chove. 
Na mão seguro um caderno de capa vermelho-sangue. 
E foi com o sangue de alguma veia que me rebentou 
nos dedos, que dei vida a todas as páginas. 

Sinto dizer que não deixarei muito,
a não ser este caderno: silêncios que me arderam
nos ossos, porque a vida queimava.
Onde as dores devoram o papel nicado e amarelecido,
mais que o tempo. O que deixo são uns quantos
momentos comovidos e alguma mágoa alvoraçada.
Um cálice cheio da melancolia que os meus olhos beberam.
Se o leres, promete que não sentirás pena.
É nas profundezas dos abismos que se equilibra a vida,
e a noite se abre.  Sei que é pouco. Muito pouco.
Julgamos sempre ser mais do que alguma vez fomos,
ou seremos.

Sónia M
(Notas de um diário, Abril 95)






16 outubro, 2014

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A minha mãe nunca me disse que do asfalto
cresciam garrotes a estrangular a vida.
E que as janelas para a rua, teriam grades
e cortinas pesadas, por onde o sol pouco passa.
Ainda me iludi, por instantes, com a maciez
do chão desta sala e com os fatos de casaco e gravata.
Mas esta manhã reparei que pisava penas;
a suavidade de umas penas, que em tempos já foram asas.

Ontem o meu filho perguntou-me
porque caem as folhas das árvores.
E eu deitei-me ao seu lado  e inventei-lhe um conto,
daqueles que fazem o mundo bonito.
Cada vez que o olhava, podia ver-me, através dos seus olhos
de encanto. Lembrei-me da minha mãe, que tantas vezes
se deve ter visto nos meus, quando eu acreditava que o mundo
era feito à medida das suas histórias.

Sónia M

Pintura:
GLÊNIO BIANCHETTI - Mãe e filho - Acrílico sobre fundo sólido

09 outubro, 2014

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- O que é o amor afinal?

Amor

o amor é um búzio
que encostas ao ouvido
para ouvires por dentro
o suspiro desesperado.

Ou um bicho rebelde
que expia os pecados do mundo.

Uma língua
que segrega um silêncio cheio.

Uma linguagem táctil
a exaltar os corpos.

Uma boca
que se nega à palavra exacta
por não haver palavra para este desespero.

Talvez o amor seja a ternura 
com que te olho enquanto dormes
ou a raiva que sinto do sono
por não saber para onde te leva.

O Amor é : a febre de ti
que me vara os ossos.

Um aclarar da noite 
quando por fim
a muralha de pernas em ti se fecha
e a vida toda nos transpira dos poros.

A certeza é uma loucura tão pouco certa...

Mas saber-me assim 
tão certa 
ou tão louca
é tudo quanto me basta: 
O Amor somos nós.

Sónia M


Imagem:
George Portz

30 setembro, 2014

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Tenho para mim,
que os sonhos, 
servem apenas para motivar os passos, 
que nem sempre chegam onde queremos... 
mas a algum lado chegam... 
Por isso devemos sonhar 
{sempre}
nem que seja para não ficar parados... 

Sónia M