02 dezembro, 2014
...
...e se parto, não me despeço.
Sempre chego sem que me notem.
Regresso sempre com algum lugar atado aos dedos,
um grito cravado nas unhas,
ou um rio a transbordar do peito.
Nunca sei se vou, se venho, ou se alucino.
Desconfio que as melhores viagens,
foram entre as paredes deste quarto.
Seja como for,
há sempre um voo que se derrama
numa folha de papel...
A poesia "caminha-nos" lado a lado.
Sónia M
Pintura, Roman Urbinsky
26 novembro, 2014
A Menina e a Árvore
- Por causa da menina.
- Qual menina?
- A menina que tinha uma árvore.
Nunca vos contei essa história?
-Não!
-Não!
Houve um tempo em que as raízes eram as casas e havia mais raízes que prédios.
E havia mais árvores que homens e mais flores que alcatrão. E quando a manhã
chegava à hora de vir, trazia o canto dos pássaros e não as buzinas dos carros.
Numa noite clara, como esta, um vento antigo segredou-me ao ouvido, que
naquele tempo o ar era leve e as árvores ficavam grandes e fortes, muito mais
depressa que agora. E depois que vestiam o seu vestido verde de folhas,
jamais o despiam. Não sei se isto alguma vez foi verdade, mas foi assim que
aquele vento me disse, mesmo antes de sumir por entre as casas adormecidas.
Disse-me ainda que o "depressa" e o "devagar" não existiam. Ninguém contava
o tempo, nem havia relógios, nem horas. Tudo chegava quando chegava,
porque fazia falta que chegasse, nada nem ninguém tinha pressa e nunca havia
atrasos. Como o Sol e a Lua, que também nunca se atrasam e sempre chegam.
Foi nesse tempo, em que tudo era simples, que nasceu uma menina,
de pele morena e uns olhos muito verdes, como as folhas das árvores.
A menina foi crescendo e ao mesmo tempo que crescia a menina, uma árvore
também crescia. Todo o tempo que podia, a menina passava com a árvore.
E a árvore protegia a menina. Por dentro, a menina amava a árvore
e a árvore por dentro, amava a menina.
Assim começa a história:
Era uma vez uma menina que tinha uma árvore, não tinha um gato, nem um cão,
nem um pássaro. Tinha uma árvore! Ou talvez fosse a árvore que tinha a menina...
Brincavam ao "faz-de-conta-que-sou-uma-árvore". A Árvore brincava tão bem,
que a menina sempre perdia! Encostava-se de braços abertos ao seu tronco e
ficava quieta, como a árvore. As formigas subiam-lhe pelas pernas e faziam cócegas.
E a menina saltava e saltava e sacudia! Mas a árvore não. E a menina perdia.
A árvore nasceu a saber ser árvore e a menina a sonhar que o seria.
O tempo passava sem que ninguém o contasse e um dia a menina, deixou de ser
menina, nunca mais brincou ao "faz-de-conta-que-sou-uma-árvore"
e resolveu brincar a ser menina. Partiu para longe, muito muito longe!
A árvore, ao ver que a menina não chegava quando devia, entristeceu.
A melancolia pintou-a de dourado. E subitamente, embaladas nos braços do vento,
uma a uma, todas as folhas caíram. Quando a primeira folha
tocou o chão, o homem conheceu a tristeza, a nudez...a melancolia.
E começou a contar o tempo. E inventou a palavra "saudade".
Foi então que todas as árvores se despiram.
Mas já foi há tanto tempo, mãe!
Porque caem ainda as folhas das árvores?
Porque os braços de uma árvore podem ser tão compridos,
que quando abraçam, abraçam por dentro a alma do tempo.
Apesar de não contarem minutos nem horas, todos os anos há uma altura
em que se despem, como se despiu a árvore da menina. Sabes, só o homem
conta o tempo e esquece. Esquece tudo. Esquece a alegria,
a tristeza. Esquece o amor, a melancolia. Esquece até o tempo, que conta.
Mas as árvores não. As árvores não conhecem o esquecimento.
De quando a quando, há uma menina que nasce árvore, ou será uma árvore
que nasce menina...
Brincam ao "faz-de-conta-que-sou-uma-árvore", com uns braços de amor,
que se estendem para além das distâncias, das ausências e do tempo.
E brincam tão bem, que não esquecem, nem são esquecidas.
Nenhum amor é tão pleno, simples e verdadeiro, como este, com que nos toca.
Eu tenho uma Menina/árvore, ou será a Menina/árvore que me tem...
e tu também tens uma, acredita.
Sabes?
Eu sei que não é por causa da menina que as folhas caem...
E também sei de quem estás a falar!
E também sei quem é a minha...
Texto, Sónia M
(Contos para adormecer)
Desconheço a autoria da imagem...
16 novembro, 2014
O Caderno
O céu desaba na rua indefesa. Chora o céu.
E em mim chove. A noite parece ser mais noite,
mais escura, quando chove.
Na mão seguro um caderno de capa
vermelho-sangue.
E foi com o sangue de alguma veia que
me rebentou
nos dedos, que dei vida a todas as páginas.
Sinto dizer que não deixarei muito,
a não ser este caderno: silêncios que me arderam
nos ossos, porque a vida queimava.
nos ossos, porque a vida queimava.
Onde as dores devoram o papel nicado e amarelecido,
mais que o tempo. O que deixo são uns quantos
momentos comovidos e alguma mágoa alvoraçada.
Um cálice cheio da melancolia que os meus olhos beberam.
Se o leres, promete que não sentirás pena.
É nas profundezas dos abismos que se equilibra a vida,
e a noite se abre. Sei que é pouco. Muito pouco.
Julgamos sempre ser mais do que alguma vez fomos,
ou seremos.
Sónia M
(Notas de um diário, Abril 95)
momentos comovidos e alguma mágoa alvoraçada.
Um cálice cheio da melancolia que os meus olhos beberam.
Se o leres, promete que não sentirás pena.
É nas profundezas dos abismos que se equilibra a vida,
e a noite se abre. Sei que é pouco. Muito pouco.
Julgamos sempre ser mais do que alguma vez fomos,
ou seremos.
Sónia M
(Notas de um diário, Abril 95)
16 outubro, 2014
.
A minha mãe nunca me disse que do asfalto
cresciam garrotes a estrangular a vida.
E que as janelas para a rua, teriam grades
e cortinas pesadas, por onde o sol pouco passa.
Ainda me iludi, por instantes, com a maciez
do chão desta sala e com os fatos de casaco e gravata.
Mas esta manhã reparei que pisava penas;
a suavidade de umas penas, que em tempos já foram asas.
Ontem o meu filho perguntou-me
porque caem as folhas das árvores.
E eu deitei-me ao seu lado e inventei-lhe um conto,
daqueles que fazem o mundo bonito.
Cada vez que o olhava, podia ver-me, através dos seus olhos
de encanto. Lembrei-me da minha mãe, que tantas vezes
se deve ter visto nos meus, quando eu acreditava que o mundo
era feito à medida das suas histórias.
Sónia M
Pintura:
GLÊNIO BIANCHETTI - Mãe e filho - Acrílico sobre fundo sólido
09 outubro, 2014
.

Amor
o amor é um búzio
que encostas ao ouvido
para ouvires por dentro
o suspiro desesperado.
Ou um bicho rebelde
que expia os pecados do mundo.
Uma língua
que segrega um silêncio cheio.
Uma linguagem táctil
a exaltar os corpos.
Uma boca
que se nega à palavra exacta
por não haver palavra para este
desespero.
Talvez o amor seja a ternura
com que te olho enquanto dormes
ou a raiva que sinto do sono
por não saber para onde te leva.
O Amor é : a febre de ti
que me vara os ossos.
Um aclarar da noite
quando por fim
quando por fim
a muralha de pernas em ti se fecha
e a vida toda nos transpira dos poros.
A certeza é uma loucura tão pouco certa...
Mas saber-me assim
tão certa
ou tão louca
é tudo quanto me basta:
O Amor somos nós.
Sónia M
Imagem:
George Portz
05 outubro, 2014
Neste meu sonho não há noite...
Neste meu sonho, não há noite.
Dou passos lentos, com medo ao tropeço.
Dou passos lentos, com medo ao tropeço.
Olho curiosa para as mãos cheias de estrelas,
que resolvi passear num dia sem fim.
Ouço, como segredas ao ouvido de um deus louco,
que eu sou uma delas e a minha alma se entristece.
Sinto o sabor das gotas negras que me rolam no rosto.
Pequenos fragmentos da noite, aprisionada em mim.
Neste meu sonho não há noite e,
as estrelas, são estes pedaços de rocha,
que tento guardar nos bolsos.
Sinto o calor de um sol que queima as entranhas e um cansaço,
deste peso que carrego, por não ter céu, onde o soltar.
Reparo, que neste meu sonho, há um outro sonho,
que sonhas tu. Onde as estrelas embelezam um céu nocturno,
a fazer as delicias dos amantes.
Quisera eu, despertar deste meu sonho sem noite
e arrastar-te comigo para fora do teu.
E ao invés desse brilho que me emprestas,
pudesses tocar... nas sombras, que se escapam da minha voz.
E talvez se houvesse, ainda que por breves instantes,
um momento da mais pura lucidez,
onde me visses longe desse firmamento,onde me sonhas,
com os pés tão sujos como a terra por onde caminham,
me devolvesses assim a existência que me roubas,
sempre que de mim falas.
©Sónia M
Imagem:
30 setembro, 2014
.
Tenho para mim,
que os sonhos,
servem apenas para motivar os passos,
que nem sempre chegam onde queremos...
mas a algum lado chegam...
Por isso devemos sonhar
{sempre}
nem que seja para não ficar parados...
Sónia M
.
- Viver não é fácil, não.
Não sei o que impulsiona um individuo a fazer-se passar por outro.
Assumo que por boa coisa não seja.
Às vezes é tão difícil ser quem sou,
que nunca me passaria pela cabeça ser um outro nas horas vagas.
Sónia M
Não sei o que impulsiona um individuo a fazer-se passar por outro.
Assumo que por boa coisa não seja.
Às vezes é tão difícil ser quem sou,
que nunca me passaria pela cabeça ser um outro nas horas vagas.
Sónia M
28 setembro, 2014
.
Há uma linha sinuosa
quase invisível
a separar o céu da terra.
É feita de sonhos
que permeiam um nome e o outro.
Uns quantos laços de ternura
outros tantos de amor
mais uns quantos de vontade
outros tantos de coragem
respeitosamente
sustêm o horizonte que desenhamos
a pulso e a sonhos.
Se algum se desata
para que lado cai?
Como impedir que essa linha se separe?
Diz-me que é possível
a queda desobedecer a todas as leis
e que hoje
ao acordar
só não vi o horizonte que me mantém
porque me tornei cega.
Há tanto que persigo a verdade
e hoje
de ti
só queria uma mentira...
Sónia M
20 setembro, 2014
.
Esta noite tive um pesadelo. Despertava e apenas ouvia silêncio.
Era muito mais que a ausência de sons. Era profundo, apertava
cá dentro como um mau agoiro. Levantei-me lentamente e dirigi-me à janela.
Lá fora as ruas estavam cheias de gente de braços abertos e mãos estendidas,
a olhar o céu. Pareciam estátuas, ninguém se mexia nem falava.
Os carros não circulavam, as fábricas não produziam, o mundo inteiro havia
simplesmente parado e toda a humanidade estava na rua de braços abertos
e mãos estendidas, a olhar o céu. Saí à rua descalça, o silêncio incomodava
mais do que o frio, que fazia. Era difícil caminhar por entre aquele aglomerado
de gente. Acabei por andar pouco mais de um metro e parei.
Confusa, tentei perguntar, à senhora ao meu lado, o que se passava,
Confusa, tentei perguntar, à senhora ao meu lado, o que se passava,
mas da minha boca não saía um único som! Por mais que abrisse e fechasse a boca,
o único que cuspia era silêncio! Comecei a sentir os pés molhados.
Rapidamente aquela água já me chegava aos tornozelos!
Parecia um rio salgado, que nascia aos nossos pés. Foi então que reparei
que todos choravam, silenciosamente, sem desviar o olhar do céu.
Elevei o meu olhar e as lágrimas brotaram também dos meus olhos.
O mundo havia mergulhado naquele silêncio triste, sem palavras, ninguém
poderia voltar a falar da beleza das flores. O céu estava encoberto com uma nuvem
gigante e dela caíam milhares de borboletas mortas.
Abri os braços e estendi também as minhas mãos, que a pouco e pouco
ficaram cheias de cadáveres coloridos... Quando acordei, tentei escrever o sonho
imediatamente, para tentar não me esquecer dele.
Acordei incomodada! Fiquei em silêncio, a ouvir as buzinas dos carros lá fora
e as sirenes da policia. Há tantos ruídos nesta cidade cinzenta.
Crianças que choram, ao ouvir a morte que gargalha nas costas das mães,
sem que elas saibam porque choram. Creio que apenas a inocência a ouve,
a apoderar-se do tempo, que cada vez é menos. É quando acordo,
que os sonhos bons me visitam. Tenho um, de há uns anos para cá, sempre o mesmo.
Sonho em deixar de ouvir este silêncio, que ouço mais alto que todos os barulhos
desta cidade, e que à noite me atormenta. Este silêncio que grita a dor da minha gente,
que me chega de longe. Sonho que a terra reclama os filhos que partiram.
E agora, enquanto sonho, com os olhos bem abertos, quase vejo o meu chão,
que não é este, a alagar-se de lágrimas doces, de ternura e emoção, pela liberdade
de nele poder ficar...com dignidade. No fundo, o meu sonho é um sonho simples.
E a simplicidade é das coisas mais difíceis de alcançar.
Sónia Micaelo
(Texto integrado na Antologia "Eu tenho um sonho..." Papel D' Arroz Ed.)
19 setembro, 2014
15 setembro, 2014
Convite
Apresentação das colectâneas "Aquela Viagem" e "Eu tenho um sonho..." da Papel D'Arroz Editora, nas quais tenho o prazer de participar (nas duas). Já no próximo sábado, dia 20 de Setembro, a quem possa estar presente, aqui deixo o convite
e um abraço!
Link do evento, criado pela editora no Facebook :
https://www.facebook.com/events/1544385132452180/?ref=22&source=1
04 setembro, 2014
Danças?
Dou-te um verso por cada dor
ainda que me chamem tristeque a alegria é o poema mudo
que na minha boca existe
{que só tu me sorves da língua
que só tu me lês na pele}
há em cada verso uma dor
que se contorce agoniza e morre
que a alegria que em mim vive
não a dou que tenho pena
de a deixar assim à sorte
encolhida
numa folha de papel
uma dor em cada verso
que a alegria tem pés
e anda
sempre às pressas
não tropeça
bate fica bate vai
sempre às pressas
quando passa?
quando vem?
Dou-te um verso por cada dor
que a alegria é uma dança
uma valsa no fim do dia
minha e tua
tua e minha
minha e tua
minha...
...danças?
Sónia M
(imagem sem autor mencionado)
.
Há dias que sou tão triste como este canto.
Absorvo em mim a tristeza do mundo.
Das vozes roucas de tanto gritar.
Dos ouvidos surdos.
E sinto no meu eu mais profundo
do horizonte sombrio e distante
a falta de futuro...
Sónia M
(Pintura, Dmitry Sulimov)
E sinto no meu eu mais profundo
as injustiças de cada dia
a falta de amor
a mentira...a desilusão.
Recolho em mim toda a dor
do homem que passa
do homem que passa
todos os dias na mesma esquina
sem trabalho
sem brilho
sem pão.
Do mendigo que pede na rua
da velhice escorraçada
dos horrores da guerra
dos filhos que morreram
daqueles que não nasceram
do pranto das mães...
do pranto das mães...
do horizonte sombrio e distante
a falta de futuro...
Quero chorar...chorar sem parar!
E que em algum momento perceba
que tudo não passou de sonho
que tudo não passou de sonho
e eu possa por fim despertar
...num mundo melhor.
Sónia M
(Pintura, Dmitry Sulimov)
Chovo - Lília Tavares
Chovo
sentada dentro de mim.
Foste e contigo a tua pele
que me secava as lágrimas de silêncio.
Contigo foram as mãos, o abraço,
o beijo lavado e inteiro.
Da minha gruta já é doloroso sair.
Os meus olhos, outrora largos,
apertam-se para fugir à chama agressiva.
Estou fria e desabitada.
Vem.
Aqui o tempo partiu do tempo.
Só tu podes consertar os ponteiros despedaçados da
memória.
Contigo os ventos virão
e as aves que tinham desistido,
vão nidificar de novo no meu colo.
Lília Tavares, in Parto com os Ventos
Imagem de Sophia Alexis
http://www.flickr.com/photos/sophiaalexis/8701389195/in/photostream
Foste e contigo a tua pele
que me secava as lágrimas de silêncio.
Contigo foram as mãos, o abraço,
o beijo lavado e inteiro.
Da minha gruta já é doloroso sair.
Os meus olhos, outrora largos,
apertam-se para fugir à chama agressiva.
Estou fria e desabitada.
Vem.
Aqui o tempo partiu do tempo.
Só tu podes consertar os ponteiros despedaçados da
memória.
Contigo os ventos virão
e as aves que tinham desistido,
vão nidificar de novo no meu colo.
Lília Tavares, in Parto com os Ventos
Imagem de Sophia Alexis
http://www.flickr.com/photos/sophiaalexis/8701389195/in/photostream
02 setembro, 2014
A BELEZA - JOÃO NEGREIROS
a beleza não me faz bem
mas faz-me falta
a beleza não me faz bem
mas faz-me
a beleza não faz
a beleza não faz bem
a beleza falta-me
a beleza dizima criaturas
dá-lhes a imortalidade de quem não sabe que está a morrer
a beleza mostra-nos o que quase fomos
a beleza ensina-nos a cartilha do fracasso
a beleza mostra-nos o melhor lado para nos deixar com o outro a seguir
a beleza não é uma pessoa
a beleza é todas
a beleza não dá nada
a beleza só oferece
a beleza quer-se aos poucos
a beleza ofusca
a beleza está nas reentrâncias de todos os corpos
a beleza está em algumas canções
a beleza está nos ouvidos das canções
a beleza nunca se ri
a beleza é imparcial
a beleza faz-nos chorar mais
a beleza não é para todos
a beleza é só para alguns
a beleza é democrática
a beleza não é coerente
a beleza é relativa
a beleza ou está ou não está
a beleza morre a cada segundo
a beleza nasce sempre
a beleza faz desenhos no vidro embaciado
a beleza dá-se bem com toda a gente
a beleza não quer nada com algumas pessoas
a beleza está em todo o lado
a beleza está a todo o momento
a beleza existe
a beleza
a beleza
a beleza é deitares-te comigo no preciso momento em que eu existo para podermos olhar-nos durante o fim do resto dos dias
a beleza faz-me compreender a efemeridade e a falta de inteligência do sofrimento
a beleza é simples
a beleza usa os invólucros como pessoas
a beleza permanece no momento em que vai e vem
a beleza é a procura
a beleza é só a procura
a beleza só é a procura
a beleza a sós procuras
a beleza gosta do vento
a beleza não usa cabelo
a beleza foi feita por quem?
a beleza foi descoberta
a beleza impede-me de sentir as mãos no Inverno
não isso é o frio
a beleza usa-me
a beleza usa-me e eu gosto
a beleza usa-me e eu não gosto
a beleza queria que o mundo fosse de determinada maneira mas o mundo teima em ser de determinada maneira
a beleza é a nossa mãe
a beleza é as nossas mães
a beleza usa camisolas de gola alta
a beleza não está na moda
a beleza não está decorada
a beleza?
ninguém a sabe
a beleza ofusca
suga
serve
santa
sina
sede
some
segue
a beleza é o equívoco"
Excerto do poema "a beleza" de João Negreiros, do livro "a verdade dói e pode estar errada"
Imagem: Pintura de Omar Ortiz
22 agosto, 2014
.
"O silêncio é uma outra maneira da palavra viver
e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira."
- Mia Couto
Fotografia Sónia M
20 agosto, 2014
A Chegada
Abri a porta e entrei em casa.
Pousei a mala e a caixa de papelão, endireitei o corpo e olhei à minha volta. Uma chuva quase demente - ora finas gotas de espanto, ora grossas e fortes - açoitou o edifício. Numa parede, duas janelas sem cortinas, faziam lembrar dois olhos esbugalhados, que me olhavam perplexos. De repente os dois olhos começaram a chorar, para dentro e para fora. Tal como chora uma mãe, quando entra em casa, o filho há muito perdido.
Ouvi bater à porta. Quando a abri, dei de caras com um sorriso, daqueles que nos fazem sorrir também. Era um homem, mas o primeiro que lhe notei, não foi o sorriso de menino, nem o cabelo grisalho. O primeiro que lhe notei e senti, foi a ternura. Caramba! O que via não era um homem com ternura. Via a ternura com um homem lá dentro. Só via o homem, porque a ternura é transparente.
- Boa tarde! Sou o zelador das almas que habitam este edifício, vim informá-la que a partir deste momento, estarei ao seu dispor, para zelar também pela sua.
- Boa tarde! Como alma perdida que sou, não sei dizer-lhe o quanto me apraz ouvir isso.
Há muitos anos que o espero.
As gargalhadas que se seguiram, não escaparam ao eco no corredor, que as repetiu até onde o ouvido já não chegava. Convidei-o a entrar, com o mesmo entusiasmo com que se pede a um velho amigo que entre, depois de uma longa ausência. A verdade é que nem o seu nome sabia, mas que importa um nome, quando a alma parece reconhecer um amigo de longa data.
Chamava-se Alexandre, era o zelador do prédio. Mas pela forma como falava e me acolhia, bem que podia ser um zelador de almas.
- Amanhã virei arranjar a choradeira da janela. Agora posso ajudá-la a trazer a bagagem para cima.
- Agradeço a amabilidade, mas já subi toda a bagagem.
- Uma caixa e uma mala!
- Achei que não precisava de mais nada.
- Entendo...Talvez me queira acompanhar, gostaria de lhe mostrar um lugar. Não demora muito, depois deixo-a, para que se instale.
Concordei, sem perguntar onde ia. Saímos de casa, atravessámos o corredor e subimos dois andares de escadas, em silêncio. Fomos dar ao telhado, onde um jardim o cobria como se de um manto se tratasse. Era lindo, como uma pintura! Ao fundo avistava-se o porto de Antuérpia, olhando para o meu lado direito, podia ver a torre da famosa Catedral e nas traseiras do jardim, um emaranhado de prédios com pequenas chaminés largando fumo, escondia as ruas cinzentas. Ali em cima, senti que pisava o último lugar verde do mundo, onde a calma, a serenidade, e até o canto dos pássaros se conseguia respirar. Olhei para o Alexandre.
- Porque me trouxe aqui?
- Achei que precisava. Já não chove, em breve o sol vai-se pôr, gostava que assistisse comigo ao pôr do sol.
- Não me parece que hoje se veja grande coisa, Alexandre. O céu está de um cinza tão escuro. Penso que passará do cinza ao negro da noite, sem que mais nada se consiga ver.
- Ver não é assim tão importante. Quando tudo o que se vê é cinza, é preciso aprender a ouvir a luz. Por vezes, quando se deita, só lhe ouvimos o cansaço, mas, quando acorda, mesmo por detrás de uma cortina cinzenta, continua a dar vida às cores...
Sónia M
Pousei a mala e a caixa de papelão, endireitei o corpo e olhei à minha volta. Uma chuva quase demente - ora finas gotas de espanto, ora grossas e fortes - açoitou o edifício. Numa parede, duas janelas sem cortinas, faziam lembrar dois olhos esbugalhados, que me olhavam perplexos. De repente os dois olhos começaram a chorar, para dentro e para fora. Tal como chora uma mãe, quando entra em casa, o filho há muito perdido.
Ouvi bater à porta. Quando a abri, dei de caras com um sorriso, daqueles que nos fazem sorrir também. Era um homem, mas o primeiro que lhe notei, não foi o sorriso de menino, nem o cabelo grisalho. O primeiro que lhe notei e senti, foi a ternura. Caramba! O que via não era um homem com ternura. Via a ternura com um homem lá dentro. Só via o homem, porque a ternura é transparente.
- Boa tarde! Sou o zelador das almas que habitam este edifício, vim informá-la que a partir deste momento, estarei ao seu dispor, para zelar também pela sua.
- Boa tarde! Como alma perdida que sou, não sei dizer-lhe o quanto me apraz ouvir isso.
Há muitos anos que o espero.
As gargalhadas que se seguiram, não escaparam ao eco no corredor, que as repetiu até onde o ouvido já não chegava. Convidei-o a entrar, com o mesmo entusiasmo com que se pede a um velho amigo que entre, depois de uma longa ausência. A verdade é que nem o seu nome sabia, mas que importa um nome, quando a alma parece reconhecer um amigo de longa data.
Chamava-se Alexandre, era o zelador do prédio. Mas pela forma como falava e me acolhia, bem que podia ser um zelador de almas.
- Amanhã virei arranjar a choradeira da janela. Agora posso ajudá-la a trazer a bagagem para cima.
- Agradeço a amabilidade, mas já subi toda a bagagem.
- Uma caixa e uma mala!
- Achei que não precisava de mais nada.
- Entendo...Talvez me queira acompanhar, gostaria de lhe mostrar um lugar. Não demora muito, depois deixo-a, para que se instale.
Concordei, sem perguntar onde ia. Saímos de casa, atravessámos o corredor e subimos dois andares de escadas, em silêncio. Fomos dar ao telhado, onde um jardim o cobria como se de um manto se tratasse. Era lindo, como uma pintura! Ao fundo avistava-se o porto de Antuérpia, olhando para o meu lado direito, podia ver a torre da famosa Catedral e nas traseiras do jardim, um emaranhado de prédios com pequenas chaminés largando fumo, escondia as ruas cinzentas. Ali em cima, senti que pisava o último lugar verde do mundo, onde a calma, a serenidade, e até o canto dos pássaros se conseguia respirar. Olhei para o Alexandre.
- Porque me trouxe aqui?
- Achei que precisava. Já não chove, em breve o sol vai-se pôr, gostava que assistisse comigo ao pôr do sol.
- Não me parece que hoje se veja grande coisa, Alexandre. O céu está de um cinza tão escuro. Penso que passará do cinza ao negro da noite, sem que mais nada se consiga ver.
- Ver não é assim tão importante. Quando tudo o que se vê é cinza, é preciso aprender a ouvir a luz. Por vezes, quando se deita, só lhe ouvimos o cansaço, mas, quando acorda, mesmo por detrás de uma cortina cinzenta, continua a dar vida às cores...
Sónia M
15 agosto, 2014
.
- Acorda...acorda...
Sussurrava a minha mãe no meu ouvido.
Beijou-me o rosto e eu abri os olhos. Quase não reconheci o quarto. O único que restava nele, eram as paredes brancas e o colchão no chão, onde eu havia dormido. Vesti-me com movimentos lentos e ao sair do quarto, apeteceu-me chorar. A casa estava praticamente vazia. Uma ou outra caixa no chão, era tudo o que restava. Lá fora, o meu pai e uns quantos homens, tentavam acondicionar os pertences de uma vida, numa carrinha de mudanças. Um dos homens entrou e levou as últimas caixas.
- Já está tudo! Estas são as últimas.
Voltou a apetecer-me chorar. Percebia agora, com a casa vazia, que era tanto o que ali deixava. Pensei que iria viver ali para sempre, mas, talvez, eu ainda não soubesse bem o que significava “para sempre”. O “sempre” é uma ilusão. A maior ilusão do Homem, que gosta de fingir que não sabe, que tudo acaba.
Enquanto a minha mãe entrava em todas as divisões da casa, uma a uma, para ter a certeza que não deixava nada, eu sabia que estávamos a deixar tudo. Aquele “S” que a minha mãe tanto tentou disfarçar, na madeira da janela da sala, era meu! Fui eu que o fiz com o bico de um lápís. A cicatriz na minha testa, era do balcão do pátio, de onde eu caí, e daquela pedra bicuda no chão, que me ofereceu os 4 pontos, que eu tanto exibi aos amigos. Acabamos por ser o lugar e o lugar somos nós. E eu não sabia como me despedir de mim mesma, ou como meter um lugar na bagagem. Podemos Ser em todos os lugares, mas o que acontece a um lugar depois que partimos? Quando já lá não Somos? E a nós, o que nos acontece a nós?
São precisos muitos lugares e pessoas para aprender que continuamos a ser o lugar...todos os lugares por onde passamos. Apesar de terem borrado a minha passagem da maior parte deles, eu conservo as cicatrizes de cada um, no corpo e na memória. E no tamanho da alma que, por onde passa, cresce. Mais tarde descobri o que acontece aos lugares
- todos encolhem.
- todos encolhem.
(...)
Sónia M
(memórias de uma menina)
14 agosto, 2014
Se me disseres destino...
Se me disseres destino
direi ironia.
Um sonho
esmadrigou
no avanço
e nem percebi
à luz do dia
que me fita
quanto do sonho
eu sou.
Em fuga
procurei inquieta
o que desde sempre
me habita.
Para não pronunciar o teu nome
chamei-te pedra
...distante
de onde brota a papoila
que me grita a sina
que eu finjo que não ouço.
Ingénuo o peixe que mergulhou na terra
para matar a sede
e o ar que parecia tão novo
a respirar uma memória antiga.
Não há chão ou lonjura que baste.
direi ironia.
Um sonho
esmadrigou
no avanço
e nem percebi
à luz do dia
que me fita
quanto do sonho
eu sou.
Em fuga
procurei inquieta
o que desde sempre
me habita.
Para não pronunciar o teu nome
chamei-te pedra
...distante
de onde brota a papoila
que me grita a sina
que eu finjo que não ouço.
Ingénuo o peixe que mergulhou na terra
para matar a sede
e o ar que parecia tão novo
a respirar uma memória antiga.
Não há chão ou lonjura que baste.
A tua falta é uma ferida que se abre
sempre que os ventos te sopram.
Este modo fulgente
com que os deuses
te alojam sob as minhas pálpebras
Este modo fulgente
com que os deuses
te alojam sob as minhas pálpebras
e antes que as feche
{ironicamente}
me sopram ao ouvido
me sopram ao ouvido
que de uma forma ou de outra
o destino
sempre nos alcança.
Diz-me
também os ouves?
Sónia M
o destino
sempre nos alcança.
Diz-me
também os ouves?
Sónia M
(Imagem, sem autor mencionado)
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