26 outubro, 2018




Já não sei regressar.
A mão que ampara, também  puxa e prende, escondendo a poesia aos pássaros. 
Nos dias que ensaio o voo, preparo o cenário. Um céu azul, desbotado, pende de uma gaiola dourada. 
Cinco ou seis gatos pardos, sentados em poltronas gigantes, fingem que aplaudem. Aguardam. Eu abro os braços e todo o meu corpo é uma cruz. Quanta beleza transpira em cima do palco onde me vês?
A dor é um poema, que se enrola à ferrugem das grades.
E eu já não sei regressar, meu bem. 
Asas batem e batem , cansadas, em frente a um chão de gatos...

Sónia M

Imagem, Noell Oszvald

06 outubro, 2018

NOSSAS MARCAS NO TEMPO...


Trago dentro do meu coração, 
Como num cofre que se não pode fechar de cheio, 
Todos os lugares onde estive, 
Todos os portos a que cheguei, 
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, 
Ou de tombadilhos, sonhando, 
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(Passagem das Horas, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)


Imagem, Sónia M

07 maio, 2017

AS MÃES

       
 



AS MÃES


as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro 
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa 
de onde nunca partimos 

as mães são eternas 
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia 
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Sónia M

Ilustração, "Crush" by Katie m. Berggren


21 abril, 2017

Foto do dia.

A raiz é livre como um pássaro!
O sonho mostra o caminho.
Chega Abril. A liberdade é já ali.

Até amanhã ❤

17 abril, 2017





Foto do dia.

Paciente, uma ave nocturna
pousa no vestido da tarde...
Esperará  que o dia se dispa
aos seus olhos arregalados de lua?


Sónia M

17 março, 2017

...






Dar-te-ia uma noite clara 
Isenta de gritos e no 
Zelo das margens do rio 

Que te banha a alma, beijaria 
Um a um os teus medos. Por 
Entre a sede das mãos, escorreria 

A verdade que entregámos aos pássaros.
Instante de luz a ofuscar os dias. 
Nesga de loucura a guardar os sonhos. 
Deitaria às águas um verso branco.
Astro fecundo nos meus verdes olhos. 

Mistério encostado ao céu da boca do 
Encanto, com que envolves 

As minhas mãos vazias. 
Morresse a lonjura no abraço do verso.
Antes não fosses um destino 
Sem tempo. Pátria perdida...à qual nunca regresso. 

Sónia M 

Imagem, © Łukasz Gliszczyński

02 novembro, 2016

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De tanto olhar pelo olho de vidro da dor
secaram-se-me os olhos.
Faço-me e desfaço-me em pele por vestir
um olhar apagado no passar dos teus dias
onde não me acho real.

O tempo habitua a dor para que já não doa.
Depois que se entende tudo é um denso vazio
a apontar o lugar onde antes havia uma ferida.

Ali esgravato para que sangre sobre a folha
duas ou três gotas de um verso só
onde um mundo gira ao contrário
para chegar ao encontro das horas.

Amarro o teu nome à palavra instante

antes que durma
e até por detrás do véu dos sonhos
o instante não é nome 
ou palavra mais ou menos que seja
do que aquilo que na minha noite mergulha:
- coisa nenhuma.

O relógio marca a ilusão 
de um amanhã que não chega.
Ainda assim te digo

até amanhã...

Sónia M


27 setembro, 2016

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Acende para mim uma luz, que o caminho é escuro
e nenhum verso te encontra.
- A luz mais lavada, que nos olhos me abra
uma certeza maior, que a da solidão da folha.


A mim, que nunca um deus me falou
basta-me saber da aranha para acreditar na teia, 
ouvir o trovão para saber da chuva.
E em tudo isto acredito. 

Ensina-me, se souberes, a rezar a todos os deuses.
Que eu só sei falar ao vento, das estações que depressa passam. 
De joelhos, como quem reza ou suplica,  deixarei uma prece
 aos pés da pedra. Farei de tudo, bem vês, que os meus frágeis ossos, 
não suportam mais o peso, da ilusão que escorre pelas paredes da casa.


- Acende para mim uma luz,  que  já nenhum verso a encontra. 
A luz mais lavada, a mais pura.
Acende...e que seja verde, como a luz 
que faz mover os corações de pedra.


Texto e imagem , 
Sónia M





15 julho, 2016

Não olhes agora.





Foi aí que chorei. E se o mundo ficar sem pássaros?


Sónia M

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Este céu…
Este céu de agora…
Este céu tem penas
que choro...

Aos milhares caem aos pés
dos que já não caminham.
Dói tanto ver o voo das aves perdidas de dor.
Faças o que fizeres
onde quer que tu vás
não olhes este céu de agora.

Pássaros desfazem-se em penas
e antes que percebas já te entraram pelos olhos.
Não queria que visses, meu bem.
Não olhes agora!
Dói  ver o voo de tantas aves órfãs…

Sónia M


Imagem, Pinterest



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Estou cheia de ausências
de saliva
de abraços de papel.

Dou por mim a querer coisas como
o rasto breve de uma estrela cadente
segurar  o brilho das águas do rio que amas
sem  molhar  a ponta dos dedos.
O que hoje sei é das coisas mais estúpidas.


Nenhuma metáfora te aclarará a noite
nem te  calará o grito.
Nada que conheço me fará beijar-te os medos.
Não há manhã que nos espere
para nos guardar a ternura.

Na verdade – e é a verdade o que mais assusta-
nunca serei mais que a tua  aprendiz de poeta.
Escrevo água e nascente
enquanto a boca bebe da fonte mais seca
e por ti  vai morrendo  de sede.


Sónia M 

Ilustração, Sean Yoro



30 junho, 2016

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Cai-te a noite da algibeira.

Estrelas costuram memórias
à franja prateada da lua.

Chamas ainda por nomes
que o tempo
num último instante devora…

Ficas tu e um poema.

Uma boca que derrama um beijo
sobre o rio das horas sós…

Sónia M


Imagem, ©Jennifer B Hudson

22 março, 2016

22 de Março



Ergo a tristeza como a pior das bandeiras.
Arrasto-a pelo meio do caos 
desta Primavera com cheiro a medo.

É sangue o que corre nas mãos 
do homem que semeia vazios
no coração das flores...

Ando cansada do tempo.
Do tempo que passa 
sem nada que diga vida.

Uma e outra vez grito para dentro 
a mesma pergunta
e nos vagos intervalos desta chuva vermelha,
oiço como a resposta sangra nas ruas.

Afinal do que tens medo? - Grito.
Deste vazio... - Sangra.

Quanto Amor trazes nas mãos?
Não digas que o Amor nada salva!
Se juntares o meu ao teu
derrubamos o medo
e salvamos as flores.


Sónia M

Imagem, ©Plantu

10 janeiro, 2016

No dia em que emudeceste a cidade

No dia em que emudeceste a cidade
um sonho atormentou-me a noite

havia uma margem
onde uma frondosa árvore
em desespero
tentava abraçar o vento

e o vento passava e ria 
intocável

um pássaro trazia a manhã à janela de um rio 
onde tu banhavas o verbo
- ventre do poema
mais secreto e indomável 

e a vida, meu bem
esse fogo
tão bendito quanto maldito
ia secando todas as águas...

trouxeste o tempo para dar de beber aos peixes
- esse quase nada onde quase tudo assenta - 
e um muro de espelhos ergueu-se!

ao olhar o meu reflexo no muro
arranquei os olhos
para não voltar a ver-me

eu era o germe do silêncio
que chorava versos mudos
condenado a roer a memória mais funda
até que o verbo... já não doa.

Sónia M




07 janeiro, 2016

...



todos os lugares são caminho
e em todos os caminhos há encanto

encontra-o em todos os passos

em todas as coisas
e nada mais te desejo...

que a cada dia

em cada rua
um homem te cumprimente
e uma mulher te sorria

e só por isso te encantes!


se no virar da esquina 

houver um beco sem saída
chama pela criança 
quase perdida
quase encantada

- só ela sabe 

como fazer uma escada
e abrir uma porta 
com um pedaço de giz
esquecido num bolso 

assiste ao pôr do sol

{a todos que possas}
como um colecionador de ocasos

começa amanhã

que ainda há tempo!

guarda-os todos 

no mais fundo dos olhos

que importa o Inverno

que chova
ou que haja mais nuvens que céu?

as nuvens são ninhos para sonhos

é lá que todos se aconchegam
- da criança ao homem
-do homem ao voo

começa amanhã

que ainda há tempo!

agarra o primeiro 

por entre o espanto das mãos
e diz-lhe o meu nome

fala-lhe de mim

como o pássaro azul
que guarda o mistério do sonho
até ao último raio de luz

Sónia M


Imagem, © Dmitry Sulimov






01 janeiro, 2016

Recomeça...



Hoje bastava um pouco mais de céu.
Um pouco mais do sonho, que se lê no papel envelhecido.
Um pouco mais de Amor e sararia as feridas dos pássaros brancos, 
que de vermelho vão tingindo a terra.
Um pouco mais, do que o tilintar dos copos.
Ou do que o riso demorado, que o caçador de estrelas mortas, 
ouve sair das janelas, na rua quase deserta.
Hoje bastava um pouco mais de tudo, ou um pouco menos de tanto...

Recomeça, porque hoje tudo recomeça.
Leva a coragem, como companheira de viagem.

Sónia M

25 dezembro, 2015

Boas Festas!

Sabes, o único que peço é saúde, 
um pouco de pão e mais presenças ...
Conheces um presente melhor, 
do que um abraço demorado?

Sónia M

A todos 
Umas festas felizes!

14 dezembro, 2015

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Vê como passa o tempo
como a chuva teima em esconder a luz
que deixas quando passas

como são longe os caminhos
como as distâncias queimam todas as pontes
deixando as margens numa solidão aguada

e vê como tudo se altera
como tudo muda
ou como tudo regressa

quando uma pequena brecha na
memória se abre
e um pequeno vento se escapa e te sopra
uma suave melodia antiga...

e como se não existisse outro tempo
a não ser o das madrugadas
onde os olhos se abraçam
e as margens cantam

inventas uma rua

regressas ao início
de um tempo sem tempo
e fazes o que sempre fazias
- danças!

Sónia M

Imagem, Oleg Bazylewicz (1964-) - 1+1 (2011)

08 dezembro, 2015

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Estes são dias parados
à beira do abismo
- uma ferida aberta 
na voz do povo
por onde o mar se adentra

dói-me o sal das suas gargantas
em carne viva - já sem gritos
doem-me as suas mãos 
cada vez mais vazias

E eu só queria que me dissesses
como acender as luzes dos seus olhos
e como apagar a noite lá fora...

Sónia M


Imagem retirada daqui: http://lizzielighthouse.blogspot.com/

26 novembro, 2015

...



Hoje sempre que fechava os olhos, via o teu retrato. 
Porque hoje era dia de abraços e eu só tinha uma imagem...
Pendurado ao pescoço, um coração. Assim vais passando pela vida, 
com ele por fora, disposto a sangrar pelas dores dos outros. 
Consigo ver-nos a todos, quando te olho, mesmo os que já cá não estão...
E somos tantos! Não sabia que alguém conseguia guardar tanta gente, 
nos olhos e nas mãos. E no aconchego das mãos das mães, não há ferida
que não sare, nem cicatriz que não se torne bela. 

Quando as coisas não correm bem e eu não consigo ser o que querias,
ainda assim dizes, " coragem! podia ser pior!".
Pois podia! Podia não te ter e não há mais ninguém como tu.
Uma espécie de anjo que nos guia e nos ergue.
É tão simples e tão profunda a tua passagem pela vida, que vou continuar
a ouvir-te a minha vida toda. Jamais me perderei do teu rosto.

Agora eu já sei, que à mãe e ao pai, se deve falar de amor e de gratidão,
sempre que se possa. Gratidão, por o amor que nos têm, não caber na palavra.
Há coisas que só se sabem depois de se ter um filho. E eu já sei, mãe, 
o que é ter um coração, sempre pronto a sangrar pelo outro...

Mãe, perdoa-me. Perdoa-me ontem. Perdoa-me hoje ...e amanhã.
Perdoa-me por te escrever tanto. Perdoa-me as cartas que já te escrevi,
as que escrevi e não te enviei e até as que te irei ainda escrever. 
Perdoa-me, por ser o único que te posso dar agora.
Palavras -  o que quase nunca foi preciso.

Esta noite, antes de adormecer, vou olhar para o nosso retrato.
Talvez assim, quando feche os olhos, despida de palavras,
te possa abraçar mil vezes, no meio do sonho...


Sónia M


(Parabéns, mãe!)







12 novembro, 2015

Entardece...


fica o tempo que são lugares
de espelhos
cortinas de coragem
que se abriam aos caminhos

bebida a viagem
fica o tempo - este Outono
um silêncio dolorido
no lugar onde se despenha a folha

fica o tempo - um lugar de sede
quando me vesti de chuva
e me sentei à mesa da madrugada
a ouvir o último suspiro das águas

- entardece, repara como entardece...diziam
mas era já tão escura a noite!...

e na desordem
da mais natural das coisas
entardeceste
para espanto das estrelas

sei que sabes
que guardarei o tempo
que são lugares

até que também eu entardeça...

Sónia M


(ao "ti Sarita", meu avô - até já!)